Sábado, 15 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1401

O jornalismo e a dissonância cognitiva dos eleitores

(Foto: Jonas Leupe/Unsplash)

A campanha para as eleições de outubro ainda não começou oficialmente (dia 16/8), mas já dá para perceber claramente como o manejo da informação tornou-se muito mais importante do que seu conteúdo. Trata-se de uma mudança na nossa cultura política deflagrada pela digitalização e viabilizada pela imprensa sem que a maioria esmagadora dos eleitores tenha percebido a sua natureza e extensão. É uma dissonância cognitiva criada pelo uso eleitoral de tecnologias sofisticadas num eleitorado ainda fortemente condicionado pela cultura analógica.

Não se discute mais a exatidão, confiabilidade e origem da informação, mas sim a forma como ela é utilizada, por quem e qual o seu objetivo final. Isto porque vivemos as consequências de uma avalanche informativa gerada pela internet, inédita na história da humanidade, e agora aprofundada pela disseminação da inteligência artificial.

Cada vez mais, as estratégias partidárias e de movimentos ideológicos usam o enviesamento de dados, fatos, eventos e ideias como ferramenta para tentar moldar percepções que alimentarão posicionamentos e atitudes das pessoas na hora do voto. A verossimilhança, objetividade, exatidão, pertinência e relevância deixaram de ser os itens mais importantes na avaliação de uma notícia ou informação, que agora são mais impactadas pelas insinuações, dúvidas, suspeitas e incertezas.

A intensificação do uso de padrões subjetivos na caracterização de informações e notícias dificulta enormemente a capacidade do eleitor distinguir factoides de fatos reais, de identificar a desinformação e as fake news. A conquista de simpatizantes e militantes passou a depender do acúmulo de percepções, independentemente do fato ou do dado numérico ser confiável e verdadeiro.

A estratégia dos factoides políticos

O debate pré-eleitoral passa a ser contaminado por factoides desenvolvidos por marqueteiros políticos que constroem narrativas repetidas ad nauseam pelas plataformas digitais com duas consequências: um factoide repetido centenas de vezes acaba sendo percebido como um fato, uma mentira ganha ares de verdade e assim passa a ser tratada pelo cidadão eleitor; a outra consequência é que a repetição de factoides e rumores através de repostagens em plataformas digitais acaba contaminando o noticiário da imprensa. Isto permite que a agenda noticiosa da imprensa seja ocupada por conteúdo sem comprovação e impede as partes contrárias de expor seus pontos de vista.

Os fatos estão sendo substituídos por vazamentos que são informações moldadas segundo os interesses e objetivos de quem as libera para simpatizantes ou aliados na imprensa, em blogs ou em plataformas. Aqui no Brasil, esse processo está sendo exaustivamente usado pelos três maiores jornais nacionais, que abandonaram escrúpulos sobre isenção e imparcialidade para enviesar manchetes visando prejudicar uma das candidaturas presidenciais no pleito de outubro.

Um exemplo concreto desse comportamento é a campanha do candidato presidencial Flávio Bolsonaro que tenta reverter a percepção negativa causada pelas suspeitas de corrupção no caso Dark Horse, usando vazamentos para inundar a imprensa com dúvidas e suspeitas sobre a participação do filho do presidente Lula em um caso de corrupção na previdência social.

O dilema do jornalismo

Num cenário como esse, o jornalismo enfrenta dilemas inéditos em matéria de cobertura noticiosa de eleições. Como checar informações quando as plataformas despejam centenas de informações em ritmo frenético nos celulares de eleitores e checar vazamentos sem autoria definida. É impossível verificar todas as fake news produzidas pelos chamados ‘gabinetes do ódio’, principalmente levando em conta que cada dado, fato ou evento rotulado como notícia envolve uma teia complexa de causas, consequências e relacionamentos pessoais.

Diante da impossibilidade material de garantir o que é verdadeiro ou falso no que dizem os candidatos e manifestos partidários, resta ao jornalismo e à imprensa a responsabilidade de admitir publicamente a proliferação de dúvidas e incertezas na cobertura eleitoral e esclarecer, especialmente, a necessidade de evitar o sectarismo e a xenofobia na hora de decidir o voto.

Significa explicar que a avalanche informativa gerada pela internet embaralhou os fluxos de informação e que o jornalismo, por ter um compromisso de honestidade informativa com o público, entende que na atual conjuntura informativa seu papel é enfatizar a complexidade do ambiente noticioso atual.

A dissonância cognitiva criada pelo uso das novas tecnologias na mobilização de eleitores ainda influenciados por uma cultura analógica é o grande desafio a ser enfrentado pelo jornalismo e pela imprensa no atual contexto político. Isto porque os fluxos informativos gerados por marqueteiros e candidatos passam obrigatoriamente por canais jornalísticos (blogs pessoais, sites de jornais, telejornais ou revistas, sites jornalísticos independentes) que, por princípio, deveriam estar submetidos às rotinas, regras e valores da profissão. Acontece que a maioria das pessoas, especialmente as aptas para votar, se informa hoje através de plataformas digitais, que veiculam notícias de conteúdo eleitoral, mas não se submetem às regras mínimas de confiabilidade noticiosa.

O dilema dos eleitores

A maioria esmagadora dos 158 milhões de brasileiros aptos para votar ainda não tem plena consciência de que as tecnologias digitais estão mudando a cultura política vigente há décadas no país. O uso de computadores, celulares, plataformas digitais (Facebook, Instagram, TikTok, YouTube etc.), sites de mensagens (WhatsApp) e programas de inteligência artificial (ChatGPT, Gemini, Copilot Claude) está incorporado à rotina diária de indivíduos, empresas e governos.

Pouquíssimas pessoas e instituições conseguem, no entanto, distinguir o que é utilitário do que é transformador quando usam um telefone celular ou um programa de inteligência artificial. É inegável que esses equipamentos facilitam a vida de indivíduos e organizações. Mas um celular e um computador também mudam a forma como as pessoas se relacionam entre si, como se informam e tomam decisões. O caráter utilitário de ferramentas digitais é facilmente reconhecível pelas pessoas, que, apesar disso, têm pouca ou nenhuma consciência de como sua forma de ver o mundo está mudando com a digitalização de nossa existência.

A enorme diversificação das informações que chegam até nós contribuiu para aumentar a desorientação e incertezas de boa parte dos eleitores que estão sendo condicionados a tomar dois tipos de atitudes: ignorar as dúvidas e aderir incondicionalmente a uma opção para fugir da incômoda sensação de vulnerabilidade causada pelas incertezas; ou viver a insegurança de não saber exatamente o que é verdadeiro e o que é falso. Os que resolvem ignorar as dúvidas são o alvo predileto dos movimentos negacionistas de extrema direita.

Admitir a dúvida como um padrão de comportamento é uma decisão difícil, porque implica abandonar as certezas com as quais a maior parte da humanidade conviveu até agora. Mas o ritmo avassalador das inovações tecnológicas e seus desdobramentos sociais, econômicos, políticos e culturais não nos deixa outras opções. Cabe ao jornalismo a difícil tarefa de promover a confiabilidade das informações num tempo em que predominam a dúvida e a incerteza. O eleitor médio enfrenta hoje uma situação complicada, porque seu comportamento e seus valores pessoais ainda estão vinculados à visão analógica, enquanto a campanha eleitoral é desenvolvida a partir da internet, das plataformas, das redes sociais e da inteligência artificial, tudo no contexto da avalanche informativa digital.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.