
(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Este domingo (27/09), às vésperas do primeiro turno de uma das eleições mais significativas para a democracia no Brasil recente, deveria ter sido o dia em que eu apenas me sentaria ao computador para uma última revisão na minha breve e singela contribuição para este espaço, mas esta se tornou uma tarefa praticamente impossível diante do irresistível ímpeto de espiar os vídeos do seminário nacional para celebrar os 17 anos do ObjETHOS (recomendo os links nas referências). As discussões tiveram como tema “A ética jornalística como elemento central à formação profissional” e aí, não teve jeito: precisei reescrever este artigo de última hora. Dito isso e realizado esse preâmbulo, vamos ao comentário da semana.
“O Jornalismo precisa de coragem para inventar um amanhã onde o interesse público tenha algum lugar. A democracia pode ser esse futuro, se a gente quiser. […] Coragem é o outro nome da ética e nós só vamos abandonar a coragem quando a gente desistir de ser humano”. Com essa reflexão, Rogério Christofoletti, um dos fundadores do ObjETHOS encerrou sua manifestação no painel “Ética jornalística, democracia e opinião pública”, que contou ainda com Eugênio Bucci e mediação da jornalista e pesquisadora Kalianny Bezerra.
Coragem, ética e responsabilidade jornalística no cumprimento do inalienável e fundamental direito à informação – como também registrou Eugênio Bucci no seminário do ObjETHOS –, estão entrelaçadas e exigem de nós, jornalistas, algumas reflexões, especialmente em momentos tão delicados quanto a iminência de um processo eleitoral marcado por tantos escândalos e pressionado por tantos interesses conflitantes, como acontece no caso brasileiro. A 10ª edição do Relatório da Democracia 2026 – Desvendar a Era Democrática?, registra de maneira preocupante que três em cada quatro pessoas no mundo, 74% da população, vivem atualmente em autocracias (formas de governo em que apenas um indivíduo detém todo o poder sem restrições), enquanto apenas 26% residem em democracias.
De acordo com o Relatório da Democracia 2026, a liberdade de expressão tem sido o aspecto mais atacado da democracia, estando em declínio em 44 países (Nord et al., 2026). Neste sentido, o mesmo documento também adverte para os riscos com relação à liberdade de imprensa, como o frequente recurso à censura governamental aos meios de comunicação, apontada como uma das “primeiras peças de dominó” a cair quando países se convertem em autocracias. Entretanto, este ‘combo’ também inclui a ampliação da tendência à parcialidade dos meios de comunicação, do assédio e violência contra jornalistas e, da autocensura nos meios de comunicação – esta, documentada como um “problema crescente” em 39 países e que funciona como uma estratégia para evitar censura direta, perseguição ou outras formas de violência. Nesse cenário, jornalistas se assemelham, como já escreveram Gohdes e Carey (2017), aos canários que são os primeiros a sofrer em meio ao vazamento de gases tóxicos nas minas de carvão.
O Brasil, segundo o Relatório da Democracia 2026, é classificado como uma democracia eleitoral em processo de democratização, ou seja, que está revertendo a tendência à autocratização iniciada com a destituição da primeira mulher ser eleita presidenta do país, Dilma Rousseff, e que se aprofundou no governo de Jair Bolsonaro – que atualmente cumpre pena de 27 anos e três meses, em regime de prisão domiciliar, por participação na trama golpista contra a democracia brasileira. Estamos, portanto, ainda em movimento no que se refere ao restabelecimento dos nossos níveis de democracia. E o jornalismo é parte fundamental nisso.
Não podemos nos furtar, a esse respeito, de registrar a repercussão recente da ‘atitude’ do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que suspendeu o acesso de jornalistas da CNN, MS NOW e do site Político à Casa Branca na semana passada, alegando que os veículos estariam divulgando “notícias falsas” e ameaçando a segurança nacional. As partes envolvidas acionaram a justiça dos EUA a e o juiz federal, Timothy Kelly, já determinou o restabelecimento do acesso de jornalistas à sede do Poder Executivo federal norte-americano. Outros veículos de imprensa, em solidariedade, chegaram a anunciar a suspensão da cobertura conjunta na Casa Branca. No entanto, a questão continua “rendendo pano para manga”, inclusive com Trump tentando silenciar mulheres jornalistas mediante constrangimento público – o que, cá entre nós, tem sido uma postura recorrente – e com o lançamento da Trump TV, com cobertura em tempo real da administração trumpista. Para quê mensageiro, quando se pode cortar caminho e dizer somente o que lhe é conveniente e sem se deixar questionar, não é mesmo?
O recurso de associar a atividade jornalística à violação às leis de segurança nacional e à divulgação de “notícias falsas”, distorcendo a realidade e buscando criminalizar o trabalho de jornalistas, lamentavelmente, não é uma novidade norte-americana e vem ocorrendo em vários locais do mundo – principalmente em nações que flertam com a tendência à autocracia. No Brasil, recentemente, vivemos isso nos anos do governo Bolsonaro, quando a Lei de Segurança Nacional foi usada para justificar investigações policiais contra jornalistas (FENAJ, 2020) e quando o acesso de profissionais de jornalismo ao Palácio do Planalto foi restrito ao famigerado ‘cercadinho’ (Rios, 2021), de onde veículos de comunicação retiraram seus profissionais da cobertura devido à insalubridade e periculosidade quanto às condições de exercício do jornalismo naquele espaço.
Em outras palavras, nós já vimos esse filme. E, nem bem estamos nos recuperando desse ‘passado recente’ e já nos vemos, novamente, às portas de uma nova ameaça com relação à nossa democracia e, por extensão, ao jornalismo. Do risco de interferência norte-americana sob Trump nas eleições brasileiras, à ação deliberada das plataformas no desequilíbrio do ambiente democrático, passando pela iniciativa de presidenciáveis que declaram publicamente submissão à bandeira dos EUA e, de forma preocupante, expressam a possibilidade de conversão da democracia laica brasileira em um estado confessional ou teocrático, o perigo é, sim, iminente. E qual é o papel do Jornalismo e de cada jornalista considerando esse contexto? Me parece que as reflexões do pesquisador e professor Rogério Christofoletti nos indicam esse caminho, possível e viável, recorrendo à ética como essência da atividade jornalística. A essência do jornalismo que é “feito por humanos, com humanos e para humanos” – como Christofoletti sublinhou em sua fala no seminário do ObjETHOS.
Retomando, novamente, as conclusões do Relatório da Democracia 2026, é necessário frisar que quaisquer atos, medidas ou condições que perturbem a atividade jornalística, acabam por interferir também nas condições de deliberação – “princípio democrático que indica que as decisões políticas devem ser fundamentadas em argumentos públicos e que o governo deve respeitar a oposição, o pluralismo e os contra-argumentos” (Nord et al., 2026, P. 12). Nesse sentido, o incentivo ao debate público inclusivo, a justificação das políticas com base no bem comum e a consulta à sociedade civil são termômetros que indicam o restabelecimento das premissas democráticas e que também devem se refletir na produção jornalística que chega às cidadãs e aos cidadãos.
“Para as democracias funcionarem, precisamos de jornalismo atuante, vivo, vigilante e com […] independência editorial”, destacou Christofoletti. Asserção que me atrevo a emendar para destacar o nosso papel, enquanto jornalistas, no sentido de atuarmos com responsabilidade, criticamente, com consciência e cientes do impacto das informações que produzimos sobre as vidas das pessoas, especialmente, quanto às que se encontram em condição de maior vulnerabilidade. Como disse a ombudsman da Folha de S. Paulo, Alexandra Moraes, no seminário do ObjETHOS, o rigor jornalístico não deve valer apenas para o jornalismo feito sobre e para as altas instâncias, deve também se ocupar da vida das pessoas. Não há possibilidade de lavarmos as mãos, é preciso que se faça jornalismo com coragem, ética e muita responsabilidade.
Ao fazer jornalismo e no momento de exercer o nosso direito ao voto, não devemos nos esquecer do lugar que ocupamos nas dinâmicas do mundo do trabalho, da nossa classe social, das nossas condições concretas de vida, do nosso gênero, da nossa cor, das nossas origens. O contrário pode nos custar muito caro: o nosso amanhã.
Referências
FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS (FENAJ). Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil: relatório 2020. Brasília, DF: FENAJ, 2021. Disponível em: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2021/01/relatorio_fenaj_2020.pdf. Acesso em: 27 set. 2026.
GOHDES, Anita R.; CAREY, Sabine C. Canaries in a coal-mine? What the killings of journalists tell us about future repression. Journal of Peace Research, Oslo, v. 54, n. 2, p. 157-174, Mar. 2017. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/309637876_Canaries_in_a_coal-mine_What_the_killings_of_journalists_tell_us_about_future_repression. Acesso em: 27 set. 2026.
RIOS, Aline Oliveira. Violência contra jornalistas: características e manifestações a partir dos relatórios da FENAJ no período 2012 – 2020. 2021. Dissertação (Mestrado em Jornalismo) – Universidade Estadual de Ponta Grossa. Ponta Grossa. 2021. Disponível em: https://tede2.uepg.br/jspui/handle/prefix/3590. Acesso em: 27 set. 2026.
SEMINÁRIO obJETHOS/UFSC: Ética e prática profissional: De qual jornalismo e democracia precisamos?. Canal: Del ‘ Pozzo Informação e Debate. 25 sep. 2026. 1 vídeo (2h 11min 43s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=x8YW1CwDG-8. Acesso em: 27 set. 2026.
SEMINÁRIO NACIONAL obJETHOS/UFSC: Ética jornalística, democracia e opinião pública. Canal: Del ‘ Pozzo Informação e Debate. 25 sep. 2026. 1 vídeo (2h 47min 39s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GP6A6dCeFA8. Acesso em: 27 set. 2026.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Aline Rios é jornalista, doutoranda no PPGJOR e pesquisadora no objETHOS.
