
(Foto: Ömer Derinyar/Pexels)
O impacto da desinformação tem efeito devastador sobre a comunicação em geral e, em particular, sobre a comunicação pública. Não se trata de, em um episódio isolado, esconder a verdade sobre um único fato, por si só algo perigoso. O grande volume de mentiras produzidas e multiplicadas em escala destrói o sentido de realidade – desorienta o público e exige um volume de atenção e checagem impossíveis para os cidadãos diante da velocidade da pós-modernidade. Hannah Arendt, ao analisar a mentira política, já havia alertado que o sentido que nos orienta, a percepção de mundo real, pode ser destruído quando as mentiras passam a ser aceitas como verdade. Não é a substituição de verdade por mentira, mas sim a tentativa de impor uma nova realidade.
Existem doenças reais que são neutralizadas por vacinas que salvam vidas. Vacinas são desenvolvidas com validação científica e baseadas no conhecimento. Dito esta obviedade, nos Estados Unidos, onde o secretário de saúde Robert F. Kennedy Jr., notório crítico da vacinação, abraçou o lema “Make America Healthy Again”, emerge um desafio para a comunicação pública: os cidadãos inseguros diante da informação oficial. Segundo pesquisa divulgada pelo site Axios, apenas 6 em cada 10 americanos confiam nas recomendações do governo sobre a vacinação infantil. A pesquisa mostra que os americanos, para obter conselhos médicos, confiam muito mais nos pediatras de consultórios particulares do que no governo.
A boa notícia é que não é simples controlar a realidade, embora a política dos dias de hoje não seja apenas de disputa de narrativas, mas de quem é capaz de administrar a realidade. Não envolve apenas convencer, mas enquadrar a realidade lutando arduamente para delimitar o que pode circular como verdade. A mediação das big techs acirra os prejuízos para a comunicação pública que tem, como premissa, mediar a informação que orienta, esclarece e contribui para o acesso da população aos programas e políticas públicas.
Embora seja um mecanismo imperfeito de mediação, o controle da imprensa é outro indicador desta disputa complexa. Semana passada, Donald Trump voltou a atacar a imprensa tradicional ao reagir à cobertura da guerra dos Estados Unidos com o Irã, acusando parte da mídia de torcer contra os EUA.
Trump celebrou em sua própria plataforma social a ideia de que estaria “remodelando a mídia”. A escalada ganhou contorno institucional quando o presidente da Federal Communications Commission, Brendan Carr, associou as críticas de Trump a um “enquadramento” das emissoras, afirmando que radiodifusores que difundirem “fake news” devem “corrigir o curso” antes das renovações de licença. Não é mais a antiga irritação do poder governamental contra a imprensa, mas a hostilidade política transferida, de forma autoritária e ameaçadora, para o poder regulatório estatal.
No Brasil, as tensões assumem outra forma. A decisão do ministro Alexandre de Moraes de autorizar busca e apreensão contra um jornalista foi criticada duramente, como precedente perigoso, por diversas entidades profissionais. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que a medida “representa grave ameaça ao sigilo da fonte e à liberdade de imprensa, pilares essenciais do Estado Democrático de Direito”. O poder do Estado em realizar investigações não pode comprometer garantias estruturais do jornalista e da imprensa. Perde a comunicação pública cidadã e ganha a truculência estatal.
A isso se soma um fenômeno ainda mais corrosivo, como dito no início: a legitimação pública da mentira. Uma “influenciadora” (é preciso rever urgentemente esta qualificação) publicou um vídeo insinuando, sem provas, que jornalistas estariam “torcendo pela morte” do ex-presidente Jair Bolsonaro. Referia-se ao árduo trabalho dos jornalistas de permanecerem de plantão, à espera de notícias, em frente a um hospital de Brasília. A postagem foi amplificada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que conferiu escala e autoridade simbólica à mentira. O resultado foi imediato: ameaças, intimidações – o que levou jornalistas a fazerem registros policiais para se protegerem. Pelo que se sabe, não houve, até agora, retratação inequívoca.
Aqui, o problema ultrapassa o simples deslize: quando uma figura pública valida uma falsidade, ela desloca o boato para o campo da realidade e esta atitude contamina todo o sistema informativo. Aliás, em outro episódio, o deputado Rogério Correia publicou uma foto, criada por inteligência artificial, com imagem falsa de Bolsonaro, do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, ambos ao lado do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. O deputado se retratou e apagou a publicação original após determinação da Justiça.
A verdade factual é sempre vulnerável ao poder — não porque possa ser eliminada, mas porque pode ser desorganizada, relativizada e substituída por versões concorrentes. No século XXI, este sistema, que deixa o público atordoado, opera em escala algorítmica. As big techs transformaram a circulação social da informação em infraestrutura privada. Não apenas distribuem conteúdo — definem alcance, visibilidade e relevância.
Assim, a mediação da realidade passou a ser também construção da realidade (o caso enfrentado recentemente por Maria da Penha é chocante por inverter a memória e a história). Daí, a veiculação de informações sem nuances e sem complexidade – de certa forma, primária, o que pode contribuir também para a prosperidade do trio “fanatismo, negacionismo e mentira”. Um estudo psicanalítico (Cassorla, 2025) aponta que “a adesão fanática a grupos religiosos, ideológicos ou com ideias particulares (racistas, homofóbicas, criminosas, por exemplo) ocorre, entre outros fatores, porque nestes grupos o indivíduo se sente visto e importante, porque todos, simbioticamente, são donos da verdade e se sentem autossuficientes”.
Dentro da perspectiva psicanalítica, o contágio emocional é favorecido tendo como base dinâmicas individuais como o narcisismo e a insegurança estrutural da pessoa – daí a informação rasa, rasteira, primária, infantil (neste caso, sem complexidade, sem contornos e sem ambiguidades). O resultado é a circulação de conteúdos “primários”, formas de pensamento que recusam o conflito e eliminam incertezas. Em vez de simbolizar a realidade, reduzem-na — tornando o sujeito mais vulnerável à manipulação, em vez de prepará-lo para se sustentar diante da complexidade do mundo.
Sob o ângulo da comunicação pública, uma das questões centrais é quem controla a realidade compartilhada e como é possível estabelecer uma mediação responsável entre o cidadão e o mundo. Se esse poder se concentra nas big techs e na mentira dos homens públicos, a democracia se estreita, a informação de utilidade pública se perde e o cidadão fica sem saber em quem confiar.
As grandes plataformas digitais passaram a organizar a visibilidade do mundo sem a contrapartida de mecanismos equivalentes de transparência e responsabilização. Não se trata de restringir a liberdade de expressão, mas de estabelecer regras mínimas para quem opera, na prática, como infraestrutura da esfera pública e exerce um poder difuso, privado e transnacional.
No Brasil, a revolução digital espalha seus problemas, não só no campo de influenciadores (mercenários e estelionatários). Dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, enquanto certos crimes recuam nas ruas, avançam de forma expressiva no ambiente digital (alta de mais de 400% desde 2018) e dentro das casas, deslocando o eixo da violência para territórios mediados por plataformas. Neste sentido, campanhas de massa de utilidade pública para defender os cidadãos, embora úteis e necessárias, não vão estancar o problema.
O país ainda hesita, mas a direção é inevitável: não há democracia informacional sustentável quando a capacidade de mediação da realidade se concentra em arquiteturas digitais tecnoinformacionais de poder, sem controle público e que exercem um domínio difuso, privado e transnacional. O tempo para enfrentar esse desafio pode estar se esgotando.
***
Armando Medeiros de Faria, vice-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública, professor da pós-graduação da PUC-MG. Coordenador do Projeto Legado de Brumadinho e diretor da LCM Conexão Pública.
