
(Foto: Denisssa Devy/Unsplash)
O colapso da imprensa e do jornalismo contemporâneo não é provocado pela falência dos grandes impérios midiáticos nem pela automatização informativa através da inteligência artificial. Ele tem origem na incapacidade de ambos em identificar e interpretar o que as pessoas pensam, desejam e necessitam. É aí que reside o grande fracasso do jornalismo atual, porque ele resiste a romper com o modelo comercial de produzir notícias (1) e assumir que o desafio digital não está na geração de informações, mas na forma como elas serão assimiladas pelas pessoas.
Para entender o dilema jornalístico contemporâneo, vamos recorrer ao paradigma da inteligência artificial (IA) que é o tema do momento. A frenética produção de inovações tecnológicas mostra que a IA está rompendo todas as barreiras imagináveis em matéria de produção de bens e serviços. Mas um raciocínio básico indica que o sucesso destas inovações vai depender da identificação de quais delas vão atender às necessidades e desejos das pessoas. (2)
O escritor e pesquisador polonês Mateusz Banaszak autor do artigo The AI Economy: A Future Where Machines Work and Humans Compete for the Surplus (A economia da inteligência artificial: Um futuro onde as máquinas trabalham e os humanos competem pelo produto excedente), mostra como os algoritmos inteligentes assumirão cada vez mais a produção mecânica por meio da automatização, cabendo a nós humanos decidir como vamos usar o que foi produzido. As máquinas não conseguem dar valor às coisas e nem atribuir significados. Isto cabe às pessoas.
A produção de informações e notícias também é afetada pelo mesmo processo e pela mesma realidade da inteligência artificial. À medida que cresce o número de influenciadores e produtores independentes de dados, fatos e eventos, a oferta noticiosa tende a superar largamente a capacidade do jornalismo e da imprensa de processar a avalanche informativa. Caberá então aos profissionais darem sentido a cada notícia conforme a audiência, contexto social e necessidades dos diferentes segmentos do público.
A grande falácia da IA
Este ano, as quatro maiores empresas tecnológicas do planeta vão investir cerca de 370 bilhões de dólares só em projetos vinculados à inteligência artificial (3). Até o final da década as previsões alcançam fantásticos 6,7 trilhões de dólares a serem aplicados com o mesmo objetivo (4). Apesar de toda esta euforia financeira, um estudo realizado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) revela que 95 % dos recursos aplicados em IA (5) não fornecem atualmente os resultados esperados pelos investidores. A principal explicação para este aparente absurdo é o desajuste entre o que os programadores e investidores desejam e o que as pessoas querem ou precisam.
Esta mesma realidade é ignorada, ou menosprezada, pelo jornalismo contemporâneo, que continua agarrado a um modelo de negócios e a uma agenda informativa vinculados ao passado, sem ver que a era digital está gerando um novo tipo de cidadania com outros desejos e necessidades. A imprensa acabou prisioneira de uma polarização ideológica alimentada por interesses econômicos, imobilizada pelo medo de apostar no novo e pressionada pela perda de credibilidade.
O grande desafio a ser enfrentado pelo jornalismo não está em concorrer com os algoritmos. Os profissionais nunca conseguirão superar a inteligência artificial na produção de dados e fatos. De nada adianta ter acesso a zilhões de notícias se elas não estiverem relacionadas à tomada de decisões por humanos. Corre-se o mesmo risco apontado pelo MIT na corrida pela inteligência artificial. A especialidade do jornalismo é a interface entre a notícia bruta e a realidade de indivíduos e comunidades, condição que assumiu uma transcendência enorme agora na era digital.
Não se trata mais de basicamente executar tarefas como buscar dados, redigir notícias ou publicar informações, mas de identificar e explorar a capacidade de cada notícia de gerar conhecimento, ou seja, ser incorporada ao capital cognitivo de indivíduos e comunidades. O jornalismo não pode entrar em pânico diante do desaparecimento de empregos associados a tarefas mecânicas ou de baixa intensidade intelectual. Isto é inevitável e já aconteceu antes ao longo da história.
Jennifer Brandel, uma pesquisadora e empreendedora norte-americana que se autodefine como ‘jornalista acidental’, fundou e dirige uma organização chamada Hearken, especializada em explorar o lado social do jornalismo na era digital. Ela acaba de publicar um texto sobre sua pesquisa a respeito de como deverá ser o jornalismo nas próximas décadas, onde lista cinco novas funções que o jornalismo obrigatoriamente terá que desempenhar: interdependência multidisciplinar, ênfase nas relações pessoais, atuação como ponte entre as pessoas, contextualização localizada das notícias e produção coletiva de conhecimento.
O jornalismo ‘antropológico’
O que os jornalistas e a imprensa precisam perceber é a exigência de uma capacitação intelectual muito diferente daquela oferecida hoje pela maioria das faculdades e cursos de jornalismo. A exigência básica não é mais saber como produzir um título ou lead. Editar um vídeo, foto ou infográfico. Nem como usar a pirâmide invertida para desenvolver uma narrativa. Na era da inteligência artificial, os repórteres, editores, fotógrafos, comentaristas e ilustradores precisam muito mais dos conhecimentos e ferramentas de disciplinas como sociologia, antropologia, estatística e psicologia.
E é aí que aparece a grande deficiência do ensino do jornalismo em faculdades e cursos do ensino superior. Não se trata de preparar o jornalista para ser mais inteligente do que os algoritmos. Muito menos disputar com eles a capacidade de produzir textos, imagens ou áudios. Isto a inteligência artificial já faz e tende a ser cada vez mais sofisticada nesta função.
É essencial identificar quando um fato, dado ou evento exige uma investigação profunda e com que objetivo. Quando as consequências sociais, econômicas e políticas de uma notícia exigem um processo de checagem de veracidade. E em que circunstâncias as pessoas precisam ter consciência de que estão submetidas a campanhas de desinformação. O grande patrão do jornalista não é mais o dono do jornal, da revista, do rádio ou da TV, mas o público ao qual ele se dirige. Isto exige comportamentos, regras e valores totalmente diferentes dos vigentes atualmente na imprensa. Atitudes, normas e conceitos que só a universidade pode ensinar.
- Por modelo comercial entendo a produção, edição e publicação de notícias capazes de atrair a atenção das pessoas visando trocar esta atenção por anúncios pagos. Este processo distorce a função da notícia que passa a ser condicionada pelos interesses de anunciantes em vez de atender aos interesses das pessoas que leem jornais, revistas e sites na internet, ouvem programas noticiosos na rádio ou assistem a telejornais na TV ou na web.
- O conceito atual de inteligência artificial foi criado pelo marketing, mas não reflete a real natureza do processo. Na verdade, a IA é um sistema de recombinação de dados digitalizados por meio de algoritmos ou softwares capazes de executar operações que nada têm de artificiais.
- Detalhes em https://blog.implan.com/ai-investments
- Ver em https://www.mckinsey.com/industries/technology-media-and-telecommunications/our-insights/the-cost-of-compute-a-7-trillion-dollar-race-to-scale-data-centers
- Detalhes em https://aimagazine.com/news/mit-why-95-of-enterprise-ai-investments-fail-to-deliver
