
(Foto: Hannah Tu/Unsplash)
O mega passaralho (1) que dizimou a redação do The Washington Post deu um novo significado ao lema do jornal norte-americano: “A democracia morre no escuro”. Além de mandar sumariamente embora 300 profissionais, foram fechados cerca de 20 editorias e 10 postos de correspondentes no exterior. A brutal decisão de Jeff Bezos, o dono do jornal, fornece a prova mais convincente de que a imprensa está irremediavelmente dividida entre publicações locais e globais.
Quase todas as editorias desativadas, porque ficaram sem pessoal, cobriam notícias locais na capital, Washington, e arredores, bem como temas especializados como esporte, cultura, arte, moda e gastronomia. Os sobreviventes do massacre funcional se concentram basicamente na política nacional, na economia e na cobertura de questões diplomáticas relacionadas a temas europeus, russos e chineses.
A agenda de notícias do The Washington Post será, daqui por diante, mais concentrada na luta pelo poder nos Estados Unidos, relegando a um plano secundário as preocupações locais, o que deixará os leitores do jornal no “escuro” no debate sobre questões relacionadas à democracia, contrariando o lema do jornal.
A divisão, obviamente, não passou pela cabeça de Bezos, um bilionário dado a excentricidades e que não está nem aí para o futuro do jornalismo. Suas duas grandes preocupações são a inteligência artificial nos negócios da sua rede de comércio eletrônico Amazon e a corrida espacial como aposta numa futura colonização planetária.
O circuito do poder mundial
Ele viu que o jornalismo atual deixou de ser uma fábrica de dólares como foi até a virada do século e nem o apoio político a Trump funcionou como Bezos esperava. Assim, ele atirou no que viu, a perda de dólares, e matou o que não viu, o futuro do jornal que ele comprou em 2013 por 250 milhões de dólares para alavancar o seu ego no mundo empresarial e na política. O The Washington Post, também conhecido pela sigla WaPo, terá agora que disputar leitores entre grandes empresários, políticos, lobistas, governantes estrangeiros e formadores de opiniões.
Trata-se de um público já dominado pelo The New York Times e Wall Street Journal, sem falar nas dezenas de newsletters políticas e influenciadores de alto nível que ocupam os grandes fluxos informativos no chamado Beltway Circuit (2), a área de Washington onde se concentram os principais núcleos de poder dos Estados Unidos. É uma escolha editorial com desenlace incerto, porque de seu sucesso dependerá a sobrevivência financeira do que restou do The Washington Post. E tudo indica que a polarização entre seguidores e desafetos do governo Trump pode acabar empurrando o jornal para o lado da direita norte-americana.
A segmentação entre imprensa local e global confirmada pela crise no Post ajuda a entender um pouco mais o futuro do jornalismo. A imprensa global atende os interesses das elites e tomadores de decisões, envolvidos na guerra de narrativas visando a tomada do poder político, econômico e militar. É o que já assistimos hoje na maior parte da imprensa mundial. Este segmento noticioso não terá problemas de sustentação financeira porque sempre haverá algum lobby, partido, governo ou empresa disposto a pagar anúncios e narrativas que favoreçam seus interesses. Neste segmento a informação é uma arma política e o jornalismo uma ferramenta executiva.
Bilhões de pessoas no ‘escuro’
O grande espaço novo que se abre é o do noticiário local, cuja importância cresce na medida em que a imprensa convencional se concentra cada vez mais na temática global e no acompanhamento dos grandes mercados financeiros. O jornalismo local tem diante de si um público órfão em matéria de dados, fatos e eventos relacionados ao seu cotidiano e ao seu orçamento doméstico. São bilhões de indivíduos, no mundo inteiro, que estão literalmente no escuro em matéria de participação democrática porque não dispõem de ferramentas informativas locais.
O futuro da imprensa e do jornalismo local é fascinante, mas seu presente é desafiador, para dizer o mínimo. A implantação de um ecossistema informativo local em regiões urbanas e rurais deve levar meses ou anos, porque depende da população entender o valor da notícia no seu orçamento doméstico e no seu dia a dia. Depende também da superação da desconfiança em relação à imprensa, de aceitar o jornalismo como parceiro, admitir a necessidade de pagar pelo noticiário local e adotar uma postura mais crítica em relação ao material divulgado pelos influenciadores.
Por seu lado, os jornalistas também terão que mudar seu comportamento no relacionamento com pessoas comuns. Eles passarão a ser parceiros, portanto iguais, deixando de ser aqueles que sabem o que é bom para o público. A meta de cada profissional será a prestação de serviços às comunidades, em lugar de almejar um emprego em Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro ou se tornar um correspondente estrangeiro no circuito Londres, Paris, Washington e Nova Iorque.
Os 300 profissionais demitidos pelo The Washington Post provavelmente terão que fazer uma difícil opção em termos de sobrevivência financeira. A capacitação adquirida na produção de notícias globais lhes dá as credenciais para buscar realização profissional na cobertura jornalística comunitária ou em áreas especializadas como esportes, cultura, gastronomia ou política municipal. O dilema será a adaptação ao novo meio e conseguir alguma fonte suplementar de renda para recompor seu orçamento.
A divisão da imprensa, escancarada pelo passaralho do WaPo, é um revés para todos os que acreditam que o jornalismo tem uma função essencial no empoderamento das pessoas comuns no combate à desinformação alimentada pela guerra de narrativas promovida pelos participantes da luta pelo poder nas altas cúpulas da política e da economia.
- Jargão jornalístico para designar uma demissão em massa de profissionais. É uma metáfora inspirada no voo rasante de uma ave de rapina decapitando cabeças de profissionais numa redação.
- Beltway é o nome da rodovia I-495 que rodeia toda a capital norte-americana sendo famosa pelos gigantescos congestionamentos de veículos. O nome da rodovia serve de metáfora para o poder político em torno da Casa Branca.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
