
(Foto: Kyle Loftus/Pexels)
O futuro do jornalismo ainda é uma grande incógnita, mas tudo indica que sua adaptação plena ao meio digital vai passar pela cobertura local. Isto porque pesquisas indicam uma queda continuada na importância que as pessoas atribuem ao jornalismo na hora de tomar decisões. O fenômeno é uma consequência direta do preocupante divórcio entre o que a imprensa e as pessoas comuns acham importante. Trata-se de um fenômeno que põem em xeque a estrutura e as práticas da imprensa convencional.
A desconexão atual entre o público e a imprensa tem origem no domínio das elites políticas e empresariais sobre o processo pelo qual a imprensa incide sobre a formação da agenda pública de debates. Além disso, o distanciamento foi agravado pela migração de leitores, ouvintes e telespectadores para as plataformas digitais e redes sociais (1). A combinação destes dois fatores, mais a disrupção provocada pela introdução massiva de tecnologias digitais, levaram a imprensa em geral a enfrentar agudas dificuldades financeiras que resultaram no fechamento de quase metade dos veículos jornalísticos tradicionais.
Há um crescente consenso de que a chamada “crise no modelo de negócios” da imprensa só será resolvida através do estabelecimento de uma nova relação entre jornalistas e o público. O profissionalismo jornalístico evoluiu muito no que se refere às técnicas de investigação, edição e publicação de notícias, com o uso de computadores e da internet. Mas o fascínio com as novas tecnologias fez com que repórteres, editores e executivos da imprensa a se despreocupassem com a relação com as pessoas comuns.
Tudo isto acontece num momento de quebra de paradigmas, especialmente no campo da informação pública, que provocaram uma grande desorientação entre os consumidores de notícias, comportamento agravado pelo fenômeno das notícias falsas e das campanhas de desinformação. O declínio acelerado do poder da imprensa convencional e os dilemas financeiros enfrentados pelo jornalismo autônomo criaram um vácuo informativo materializado no fenômeno dos “desertos informativos” (2).
Notícias ‘com’ em vez de ‘para’ as pessoas
Para o jornalismo recuperar os índices de confiabilidade que teve no passado ele precisa preocupar-se agora com o atendimento das necessidades informativas das pessoas comuns. Isto implica uma mudança dos comportamentos, regras e valores da profissão. Em vez de produzir notícias ‘para’ o público, o jornalismo terá que trabalhar ‘com’ as pessoas. Na imprensa convencional os profissionais são pagos com recursos oriundos da venda de anúncios, o que acaba condicionando a pauta de notícias ‘para’ o a escolha de notícias mais próximas dos interesses dos anunciantes.
A produção de notícias ‘com’ as pessoas surge a partir da necessidade de interromper o processo de desertificação noticiosa ao fazer com que o jornalismo se torne algo essencial à vida das pessoas num ambiente cada vez mais congestionado por informações nem sempre confiáveis. Mas a parceria tem ainda um outro e transcendental efeito. Na falta de anunciantes, o jornalismo local só sobrevive com a ajuda material e imaterial das pessoas (sustentação financeira e coprodução de informações), o que só acontece quando há uma confiança mútua e uma noção de que vale a pena pagar por notícias.
As informações sobre lixo, horário de transporte público, situação de escolas e centros de saúde são mais importantes para os assalariados de baixa e média renda do que o índice Bovespa, mercado de câmbio, as andanças de Donald Trump, decisões de Netanyahu ou conflito entre drusos e clãs na Síria. A parceria com o público implica uma mudança radical na pauta de assuntos tratados por jornais, revistas e telejornais.
Boa parte do espaço informativo vago criado pela migração das audiências para a internet está sendo ocupado pelos chamados influenciadores digitais, um fenômeno que está se multiplicando vertiginosamente em todo o mundo. No Brasil, os totais variam entre dois e 10 milhões de influenciadores, já que as estatísticas são muito imprecisas. Mas elas coincidem com um crescimento acelerado de mais de 60% ao ano, especialmente entre o público jovem (3).
O ‘apocalipse no fluxo de mensagens’
Os influenciadores e os sites noticiosos produzidos por jornalistas independentes criaram um ecossistema com características especiais. A maioria dos influenciadores sobrevive monetizando comentários e distribuindo informações especializadas, enquanto os independentes, com e sem diploma jornalístico, se concentram em comentários e análises baseadas na agenda noticiosa da imprensa convencional. Mas tanto os influenciadores como o segmento noticioso independente já dão sinais de que algo pode mudar.
A crise de confiabilidade entre os influenciadores por causa da voracidade na monetização dos conteúdos publicados, bem como a polarização político-ideológica no noticiário jornalístico podem estar alimentando dois tipos diferentes de comportamentos detectados recentemente por estudiosos da internet: o chamado “apocalipse no fluxo de mensagens’ (4) provocado pela redução de 30% na frequência de redirecionamentos de sites citados em buscas no Google; e o fenômeno da ‘postagem zero” (5), o aumento no número de pessoas que deixaram de publicar selfies e histórias pessoais nas plataformas digitais. Ambos parecem indicar um cansaço dos usuários da internet com o caos e a incertezas no fluxo informações na internet.
Caso estas tendências se intensifiquem estaremos entrando num ambiente onde a confusão informativa será ainda mais complexa e desorientadora para as pessoas comuns. Mais do que nunca haverá necessidade de uma integração entre jornalismo e a realidade das pessoas comuns.
(1) Plataformas digitais são empresas como Facebook, YouTube, Instagram e TikTok que usam a atenção do público para vender publicidade num esquema parecido com o do modelo de negócios da imprensa convencional. Redes sociais são organizações como Snapchat e Medium que publicam e discutem textos produzidos por jornalistas, pesquisadores, escritores e influenciadores. Não há associação direta com a publicidade comercial.
(2) Cidades com menos de um veículo de comunicação jornalística.
(3) O site Meio e Mensagem aponta dois milhões, enquanto o do Consumidor Moderno, citador pelo jornal Valor Econômico, estima em 10,5 milhões de influenciadores brasileiros.
(4) O termo ‘Traffic Apocalypse’ ( Apocalipse no Tráfego) foi criado pela jornalista Charlotte Klein num artigo publicado pela revista New Yorker para caracterizar a redução no número de recomendações de sites a partir de buscas convencionais no Google. Boa parte das consultas são agora feitas por meio de perguntas à opção AI Overview (visão a partir da Inteligência artificial) que utiliza algoritmos criados pelo Google e não redireciona mais as buscas para as páginas citadas.
(5) A expressão postagem zero foi cunhada pelo pesquisador americano Kyle Chayka autor do livro ‘Mundo filtrado: como os algoritmos nivelaram a cultura’ e do artigo Are You Experiencing a Posting Ennui (Você está experimentando um enfado na postagem).
***
Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
