Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Imprensa: Procurando ‘luz no fim do túnel’ na guerra Israel-Hamas

A trégua feita na guerra entre Israel e Hamas não deve se dirigir a um início de processo de paz e tudo sugere que o conflito se voltará massivamente para rede de túneis subterrâneos na Faixa de Gaza. Assim sendo, será mais um grande desafio para a cobertura jornalística frente às dificuldades de movimentação por perigosos e complexos sistemas de passagem, claustrofóbicos, escuros e apertados e com ameaça permanente das armadilhas e ataques de emboscadas da guerra de guerrilha.

Não é uma novidade entre os exércitos os combates em túneis, mas talvez aconteça numa proporção jamais vista. Os jornalistas que terão acesso à rede de túneis subterrâneos precisarão se precaver mais ainda com situações não muito comuns na cobertura de guerra, e mesmo alguns deles tendo tido várias experiências em outros conflitos. Combates isolados de guerra urbana devem ocorrer, no entanto não acenam que serão num volume tão expressivo como ocorrem na Ucrânia ou na Síria.

Segundo militares especializados em guerra assimétrica, além de todas as características negativas dentro das passagens subterrâneas há outras particularidades pouco lembradas, como o próprio ambiente do conflito que pode sufocar e intoxicar os combatentes pela queima de gases gerada pelos frequentes disparos das armas como fuzis, metralhadoras e pistolas, e também granadas.

Vietnã

A experiência mais marcante nos últimos tempos neste tipo de cenário foram os históricos túneis dos vietcongues (guerrilheiros do Vietnã do Norte) que embora fossem lugares muito eficientes para atacar e se esconder, geravam muitos problemas sanitários, como falta de higiene, proliferação de microrganismos que provocavam doenças, além da presença de morcegos, ratos e outros animais indesejáveis como aranhas e formigas.

Estima-se que a rede tinha entre 120 km e 220 km de extensão com pisos e paredes de barro. A largura dos túneis de ligação variava de 60 centímetros a 1,2 metro e a altura de 80 centímetros a 1,6 metro. Por terem biotipos menores do que os inimigos norte-americanos, as entradas apresentavam espaço bem reduzido. Alçapões de madeira ficavam disfarçados cobertos por vegetação ou com estruturas simples camufladas, que faziam a composição com o ambiente ao redor.

Para garantir o fornecimento de ar fresco, dutos formavam intricados sistemas de ventilação e desembocavam na superfície. A estrutura dos cômodos impressionava muito, abrigando depósitos de munição, pequenos hospitais, oficinas de manutenção, cozinhas e inclusive podiam ser encontrados até áreas com ‘cemitérios’.

Como descreve a plataforma digital Quora, os alojamentos ficavam no segundo ou terceiro pavimento (os mais profundos e protegidos) e as redes para dormir eram confeccionadas a partir de paraquedas capturados dos norte-americanos.

Correspondentes de guerra

Naquela época a presença de correspondentes de guerra nos labirintos já era limitada por razões de segurança, por causa de emboscadas com armadilhas envenenadas e explosivos, além de confrontos com muita proximidade entre combatentes. Tanto repórteres cinematográficos como fotojornalistas, que estão sempre mais próximos da linha de frente, sofriam pela dificuldade da crônica falta de luz. Além disso, a captação de imagens com a busca de enquadramentos e ângulos diferentes não ocorria com facilidade. Vale lembrar que sob os olhos dos veteranos do audiovisual ao contrário da mídia impressa, “televisão é imagem” e ela já era fundamental para aquele novo meio de comunicação da época.

Provavelmente pela falta de uma cenografia mais convidativa, espaço reduzido para movimentação e entraves na captura de cenas atraentes, o cinema norte-americano também tenha feito tão poucos filmes sobre combates nos túneis vietnamitas. Em resumo, era um verdadeiro filme de terror produzir naquele set.

Na lista de inimigos dos profissionais de imagem se encontrava ainda a umidade. Na década de 1960 até o início da década de 1970, a filmagem de notícias para televisão era realizada geralmente por câmeras portáteis com filme cinematográfico de banda mais estreita. O cameraman gravava imagens em rolos de película de 16 mm, que depois eram revelados, como fotografias, editados em moviolas e depois os fotogramas transformados em vídeo tapes para serem exibidos pelas emissoras de TV.

Uma câmera muito empregada naquele período era a Bolex 16 mm. Seu operador precisava dar corda, como um relógio despertador, para que funcionasse. Um carretel de filme tinha um tamanho entre 15 e 30 metros. Em geral as filmadoras usavam rolos de 4 minutos. A complicação surgia quando o filme velava por ficar molhado ou outro problema causado pelo ambiente hostil. Às vezes todo o trabalho se perdia inteiramente, depois de o correspondente ter arriscado sua vida, um verdadeiro paradoxo existencial.

Por toda a peculiaridade desse tipo de combate, segundo a página especializada em assuntos militares Tropas e Armas, os ianques entenderam que seria de bom tamanho instituir um grupamento especializado não oficial e criaram a unidade de voluntários ‘Ratos de Tuneis’ (Tunnel Rats). Para seu trabalho o biotipo mais apropriado exigia um soldado baixinho, magro, mas com grande capacidade física e resistência psicológica. O objetivo do trabalho: simplesmente aniquilar os inimigos e a infraestrutura dentro da malha de vias subterrâneas dos vietcongues.

O equipamento fundamental era muito simples, apenas um revólver ou uma pistola 45, e quando preciso uma lanterna e uma faca de trincheira. Às vezes empregavam lança-chamas, granadas e explosivos plásticos. Ao final da Guerra do Vietnã a unidade Tunnel Rats apresentava uma grande taxa de baixas, atingindo aproximadamente 33% do seu efetivo. Este alto índice de perdas demonstrava o nível de bravura e o desafio de lutar ou mesmo relatar e documentar, no caso dos jornalistas, embaixo da terra.

Túneis avançados

Na versão mais moderna da guerra nos túneis, Israel está encontrando uma engenharia militar muito mais avançada do que aquela dos vietcongues. Em média o túnel do Hamas tem 2 metros de altura por 1 metro de largura. Outra grande diferença marcante é o acabamento em concreto pré-moldado, com o formato de arco no teto, e ainda a fiação dentro de conduítes e cabeamento preso nas paredes aparentemente bem instalado. A ‘grande imprensa’ noticiou que os líderes do Hamas garantiram que a rede de túneis atual se estende por cerca de 500 km e até 20 metros de profundidade, mas há informações que foram encontrados alguns ramais que chegam a ficar até 70 metros da superfície, o que em princípio protegeria o lugar de ataques com bombas ou mísseis de penetração do tipo bunker buster (destruidor de abrigos).

De acordo com sites especializados, as Forças de Defesa de Israel estão entre aqueles braços armados que mais têm se preparado para operar em guerras de túneis. Por esse motivo, criou uma unidade de elite especializada, Yahalom (diamante, em hebraico), ligada ao Corpo de Engenharia de Combate do Exército. O trabalho especializado dos seus soldados é essencialmente achar, eliminar ou destruir túneis dos inimigos. Possivelmente serão fortes protagonistas nos futuros combates, usando robôs antibombas, que parecem mini blindados sobre lagartas com braço eletromecânico; mini drones militares, que cabem na palma da mão; ou bombas de esponja, um saco de 50 litros, contendo mistura química, que ao ser ativada expande em grande proporção uma espuma, a qual preenche, endurece e veda túneis quase instantaneamente. Além dessas novidades, outros equipamentos inéditos seguramente farão seu batismo de fogo. Vários analistas militares costumam declarar que os pilotos de caça israelenses são os melhores do mundo, e talvez, quem sabe, tenham também a melhor unidade debaixo da terra, fato que deve ser comprovado ou não na sequência desta guerra.

Por causa da letalidade do arsenal inimigo, provavelmente, o Hamas pode não dispensar um grupo reduzido de reféns para ele continuar como escudo humano e proteger os terroristas/combatentes contra-ataques da eficiente máquina de guerra subterrânea de Israel. Novamente voltará o dilema inicial deste conflito, trocar civis por terroristas ou não.

Coberturas

Em meados de novembro passado foram ao ar alguns dos primeiros vídeos do canal de Youtube israelense Shiezoli sobre o sistema de túneis debaixo do Hospital Al Shifa. Trata-se do canal de assuntos judaicos mais visto naquela plataforma de compartilhamento de vídeos, com 350 mil inscritos. A gravação não se caracterizava claramente como uma reportagem, mas como uma espécie de registro semioficial das Forças de Defesa de Israel. Segundo a narração do porta-voz do Exército de Israel, não identificado, os membros do Hamas já haviam preparado o local, porque sabiam que seriam vistoriados pelos militares e todas as dependências foram examinadas com cuidado para identificar possíveis armadilhas explosivas.

As imagens apresentavam algumas acomodações para longas permanências, por isso contavam com um pequeno e confortável banheiro. Havia também uma suposta sala operacional de comunicação cujo equipamento original fora retirado. A eletricidade era desviada do hospital acima. Mais adiante na matéria, a câmera registrou uma pequena cozinha com ladrilhos na parede. Uma caixa de luz cheia de fios foi mostrada a seguir. O porta-voz militar insistia que a estrutura do Hospital Al-Shifa era compartilhada e colaborava com o terrorismo.

Mais cômodos e quartos foram exibidos, alguns deles com ar-condicionado para abrigar comandantes, como explicava a fonte militar. O desnível do piso quando surgia era corrigido com pequeno lance de degraus. Esses verdadeiros corredores também dispunham de algumas portas blindadas de segurança contra explosões, semelhantes àquelas de submarinos. Alguns dos túneis tinham sido bloqueados com areia pelo Hamas, mas foram reabertos pelo exército israelense, como explicou o porta-voz. O acesso ao piso térreo da estrutura hospitalar se dava por discretas escadas metálicas em espiral, mas foi encontrada numa casa vizinha um piso falso e uma escada de alvenaria diretamente para os túneis.

O canal britânico ITV News, a Independent TV News, também estava entre primeiros veículos de comunicação a entrar no Hospital Al-Shifa, de Gaza, que de acordo com porta-vozes de Israel o Hamas usou como base. A reportagem de John Irvine foi produzida sob a condição que seria permitido filmar onde somente os militares deixassem. Isso, por sinal, é uma prática comum no jornalismo de guerra. As imagens gravadas pela equipe de reportagem foram verificadas posteriormente pelas fontes militares.

A matéria começa com a passagem pela cerca que separa Israel da Faixa de Gaza. Na sequência registra takes da destruição na zona de guerra, e as desoladoras ruínas e escombros que sobraram. Uns poucos civis estavam ali perambulando na área, e alguns deles empunhavam uma bandeira branca. O grupo de visitantes da TV foi direto ao complexo hospitalar onde estavam os túneis do Hamas. Os militares avisaram que haviam feito uma inspeção detalhada para ficarem livre de armadilhas antes de mostrar o local ao mundo.

O jornalista veterano, John Irvine, fez seu stand up dentro do túnel e explicou as razões porque os militares o aconselharam antes de ir ao local retirar o colete balístico. Segundo o repórter, o calor era sufocante e inclusive ele revelou que foi um aparelho de ar-condicionado sem uso na superfície que em parte denunciou a existência dos túneis no lugar.

Na matéria o coronel do exército israelense, Elad Tzuri, foi o porta-voz inicial e comentou a estrutura básica dos túneis. As imagens em vídeo documentaram também o confisco de cerca de 50 fuzis, inúmeros carregadores de munição, além de algumas mochilas e estojos. Depois disso, o jornalista britânico fez uma pergunta incisiva a outro porta-voz, o contra-almirante, Daniel Hagari, que também acompanhava a equipe de reportagem: “Dizem que os soldados encontraram armas na área do hospital. O que o senhor diria aos céticos que podem estar preocupados com o fato de o senhor ter plantado essas armas neste hospital?”

O porta-voz calmamente respondeu que não foram plantadas evidências naquele espaço, porque Israel não faz isso, é um crime de guerra, é contra o direito internacional e eles trabalham de acordo com todas as leis internacionais. Hagari complementou destacando que quando cometem erros eles admitem, mas enfatizou que não colocou provas num hospital ao lado de onde os soldados israelenses estão trabalhando e no local em que algumas famílias palestinas desabrigadas ainda vivem (nos cômodos do complexo hospitalar).

O oficial complementou expondo que os soldados estavam avisados de que não deveriam tocar nas pessoas. Segundo ele, alguns palestinos para se protegerem foram se abrigar ao lado das tropas israelenses. Outro militar entrevistado na reportagem afirmou ao jornalista que tentavam ser “amigos” dos desabrigados, levando comida e “só queriam que eles se sentissem mais confortáveis”. Para o soldado, o inimigo não eram os palestinos, mas o Hamas.

Essas primeiras imagens foram feitas num ambiente muito controlado, com bom nível de segurança e com poucas possibilidades de ocorrências inesperadas, no entanto numa guerra o fator surpresa é uma arma, como próprio Hamas demonstrou, e ações imprevisíveis devem continuar naquele ambiente.

Desinformação

Na opinião pública mundial tem havido muita desinformação, narrativas contraditórias e dúvidas sobre esse conflito, que a mídia ainda não conseguiu responder ou esclarecer. Um dos enigmas mais inquietantes é a respeito da obscura construção daqueles túneis. A pergunta que todos fazem é como Israel com dois dos mais renomados órgãos de informações estratégicas do planeta, o Serviço de Segurança Interna, Shin Bet, e o Instituto de Inteligência e Operações Especiais, Mossad, não previram a instalação de uma infraestrutura tão vasta e complexa durante todos aqueles anos que o projeto exigiu e ainda como não notar a iminência de um ataque tão espantoso, devastador e traumático ao seu território?

Acompanhando a tradição das ações da inteligência norte-americana, é conveniente sublinhar que a CIA (Agência Central de Inteligência) deve ter dado suporte maciço e contínuo ao governo israelense sobre a Faixa de Gaza, empregando a vigilância espacial, com seus próprios satélites, além de drones de espionagem. Então o que aconteceu? São questionamentos enfim que a imprensa terá que responder no futuro.

Mais uma grande dúvida é o quanto os jornalistas poderão testemunhar os combates e operações para trazer a verdade ao mundo independentemente dos interesses das partes envolvidas? Os números de baixas poderão ser checados com mais precisão? E os crimes de guerra, que porventura ocorrerem, serão apontados ou desvendados para a opinião pública mundial? Eis as questões…

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Paulo Sérgio Pires é jornalista, publicitário e professor de Comunicação. É pós-graduado lato sensu e mestre em Comunicação pela USP, onde foi pesquisador bolsista. É estudioso de assuntos militares e fez treinamento básico de infantaria na Companhia de Comando do II Exército.