Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

Notícias da galáxia Nordeste

(Foto: Arquivo Pessoal)

Muito se fala a respeito da sobrevivência do negócio jornalístico, em tempos de likes e emojis. Há, porém, certos pontos ainda pouco explorados como a conexão e a atualização de certos conteúdos, seguindo a maré – sempre móvel – do público.

A noticialização do Nordeste brasileiro, por exemplo. A chamada mídia tradicional, como Globo, Record, SBT etc, e até veículos como Carta Capital, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Jornal GGN, ainda retratam a região como uma espécie de acontecimento extraterrestre, ecos de uma galáxia distante.

A tríade é manjada: belezas naturais, coronelismo e seca.

Os meios listados acima ainda tratam o Nordeste como um enorme continente, sem divisões geográficas, culturas, povos, pensamentos diferentes. Enfim, é como se o Nordeste fosse a África. Ou o Brasil só existisse “da Bahia para baixo”.

Quando o governador supremacista de Santa Catarina Jorginho Mello reacendeu, há algumas semanas, a frase “o Sul é o meu país”, falando em “passar uma trena” caso “o negócio não funcionar muito bem lá para cima”, ele não se referia a São Paulo e sim ao Nordeste e ao Norte.

Os meios de comunicação do Sudeste trataram o assunto como “piada”, sem dar o nome correto: racismo.

Também há algumas semanas O Globo fez uma longa matéria sobre a disputa eleitoral em Alagoas envolvendo o deputado federal Arthur Lira e o senador Renan Calheiros, ambos em lados opostos por terem os mesmos interesses políticos no próximo ano.

Como sói acontecer, o centenário jornal reativou os gatilhos da chamada República das Alagoas. Gatilhos capturados nas redes sociais, onde alagoanos são tratados por supremacistas como jecas elegendo políticos de péssima qualidade.

Bem, Jorginho Mello e Jair Bolsonaro – ambos desabonadores do Nordeste – nem são alagoanos nem têm raízes no Nordeste.

Mas Chico Buarque tem bisavós, trisavós e tataravós pernambucanos e alagoanos, provando que a arte é capaz de atravessar as grossas muralhas do preconceito.

Um século antes de O Globo, os jornais do Sudeste trataram o assassinato do juiz João José da Fonseca Lessa, em 3 de setembro de 1837, como um acontecimento tipicamente nordestino. Ele foi morto no alpendre de casa na cidade de Atalaia, em Alagoas.

Não se associava o crime ao contexto, mas aos desejos da carne: sedento por mulheres casadas, o juiz teve o que mereceu. Alguém lavou a própria honra, com sangue.

Na década de 1950, a surrada fórmula foi reativada na disputa entre Silvestre Péricles, governador de Alagoas, e o senador Arnon de Mello. Nas páginas da revista O Cruzeiro, o violento governador era tratado como um exemplar único no Brasil, quase um personagem do faroeste espaguete.

Nem é preciso lembrar da República de Alagoas, na era Collor…

Os maiores anunciantes do país ainda estão no eixo Sul-Sudeste, é verdade, mas isso por si só não justifica a profunda ignorância intencional da mídia sobre todo o Brasil – incluindo os meios de comunicação alternativos.

Se parte dos analistas sulistas ou sudestinos atribui exclusivamente ao Bolsa Família a acachapante vitória de Lula nas eleições de 2022, é porque a pauta Nordeste precisa ser revista e seus múltiplos personagens, contextos e intencionalidades devem tratados como brasileiros, não como moradores de uma dobra espacial distante ou quase em extinção.

Reafirmar preconceitos no jornalismo é puro suco de preconceito com o Nordeste. Palavras corretas a contextos concretos. Não piadinhas de criaturas que deveriam estar em jaulas, longe dos púlpitos.

***

Odilon Rios é jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas. Atuou como repórter em veículos como O Globo, SBT, Terra e é editor do portal Repórter Nordeste. Premiado por reportagens de impacto, também é autor de livros sobre a história e a violência em Alagoas.