
(Foto: Hossein Amiri/Unsplash)
A gasolina está mais cara, a reunião do presidente Lula com Donald Trump segue sem data definida e o mercado financeiro vive dias nervosos devido à guerra no Irã. São temas importantes na agenda diária, até que a Amazônia e o Pantanal estejam em chamas novamente, enchendo o céu de fuligem de Norte a Sul do Brasil.
A imprensa tem o papel ingrato, criticado, difícil, mas que lhe confere poder, de selecionar as notícias mais importantes para suas audiências, todos os dias. É um critério que tem dois gumes, e hoje vem sendo difícil de atender com sucesso. Nesta crítica gostaria de lembrar de um tópico bastante, se não totalmente ignorado pela grande imprensa nos conflitos armados atuais: o prejuízo ambiental e estrutural para a sociedade gerado por estes conflitos.
Resolvi perguntar ao ChatGPT sobre a presença da mudança climática no noticiário do último mês. “A guerra impacta diretamente o sistema energético global, mas o jornalismo brasileiro não traduz isso em narrativa climática no título”, disse o especialista em tudo. Achei justo. Segundo estima o aplicativo de inteligência artificial, a ocorrência de títulos de notícias em português associando a guerra à crise climática desde o início do conflito oscila entre 0% e 2% do que ele pôde rastrear na internet.
Não são dados absolutos, é bom lembrar, mas razoáveis do ponto de vista de uma busca na web. A imprensa se apoia nas tendências de busca para definir suas pautas todos os dias. Olhando para o Google Trends, não se vê meio ambiente ou clima entre as preocupações da população, traduzida pelos termos mais buscados. Quando o assunto é guerra do Irã, os temas relacionados têm sido o preço do petróleo, a greve dos caminhoneiros, ataque hacker ao BTG Pactual e outros.
O bolso é um grande pauteiro. Ilona Szabó lembrou bem na Folha de S.Paulo que a guerra lembra o quanto é necessário acelerar a transição energética e desvencilhar a economia mundial do vício em petróleo. Há números que mostram esse avanço, no financiamento de energia limpa, na ascensão da venda de carros elétricos. Mas a imprensa tem mais do que releases da Agência Internacional de Energia. A imprensa tem o microfone!
Perguntar às lideranças sobre o atraso na agenda climática causado pelas guerras rende manchete, e este interesse vem faltando às reuniões de pauta. Na geopolítica mundial, o único caminho de liderança para o Brasil é o ambiental, sendo que o tecnológico está no colo da China, e o financeiro nos cofres do Norte Global.
O Brasil lidera a criação de uma ferramenta para estabelecer a remuneração internacional a países com florestas tropicais, por exemplo. A guerra colocou o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre) em modo espera, pois o dinheiro está escorrendo em direção às armas. O presidente da COP30, o diplomata brasileiro André Corrêa do Lago, se queixou recentemente de setores da economia que apostam claramente em uma nova Idade Média, com ricos encastelados e pobres sobrevivendo às ondas de calor e aos preços em escalada.
Logicamente, a mídia (mainstream, ao menos) não pode viver de crise climática, e tem deveres a cumprir com os cidadãos, noticiando a economia, a política, etc. Mas o Brasil tem soluções a vender para melhorar este cenário, e não está conseguindo, sendo vencido por produtos tradicionais como armas e combustível. Cadê essa notícia? Vamos ver se a chegada do El Niño no segundo semestre mudará as manchetes…
Publicada originalmente em objETHOS.
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Marco Brito é Jornalista e doutorando no PPGJor/UFSC.
