
(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Faltava um ponto final no texto desta coluna, cujo tema era o agro e a COP30, quando veio a notícia da prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro. Por curiosidade, resolvi colecionar algumas manchetes sobre o fato na imprensa brasileira acessível pela internet, enquanto jornalistas e analistas construíam as narrativas para dar sentido ao acontecimento. Então resolvi deixar aquele ponto final como reticências e escrever sobre o resultado imediato de meu garimpo noticioso. O meu objetivo inicial era ver como diferentes organizações jornalísticas noticiaram o fato que todos já sabiam que ocorreria, mais cedo ou mais tarde, mas que, pelas circunstâncias, foi inesperado.
Como se tratou de um levantamento bastante espontâneo, o que aqui se expõe não se constitui como o resultado de uma análise criteriosa de acordo com padrões científicos de pesquisa. É um ensaio ou um relato de uma observação construída a partir de intuições e de um conjunto de noções que me habitam. Por hábito, contudo, o meu garimpo de manchetes seguiu alguma sistemática que descrevo a seguir (abaixo disponibilizo os links das matérias). Comecei pelos veículos mais próximos: o site Gaúcha/ZH, o jornal local A Hora do Sul (Pelotas/RS), o Correio do Povo, todos do Rio Grande do Sul. Depois fui para os consagrados como o G1, O Globo, Folha/UOL, Estadão. Em seguida, achei pertinente ver como portais de notícias de jornais de outros estados haviam noticiado o acontecimento e fui ao Correio Brasiliense, Diário de Pernambuco, Correio da Bahia, NSC de Santa Catarina, Revista Veja. Não por último, busquei os portais identificados com a esquerda, como o Brasil 247 e com a direita, como o Brasil Paralelo e a Gazeta do Povo do Paraná.
Feito o levantamento, busquei encontrar similaridades e diferenças que poderiam estar assim a um olhar mais superficial. Trata-se, portanto, de uma leitura muito particular. Aliás, a própria notícia é, antes de tudo, o resultado de uma leitura que o jornalismo faz da realidade dos acontecimentos a partir de suas fontes. Esta leitura respeita certas condições que, grosso modo, são institucionais (a ética jornalística e sua pragmática), organizacionais (os princípios editoriais da empresa jornalística, condições de financiamento, etc.) e pessoais (o jornalista com sua visão de mundo). Como produto, portanto, a notícia não é neutra nem imparcial. Ela pode ser objetiva quanto ao seu aspecto referencial ou factual (quem, o que, quando e onde), mas o seu processo produtivo sempre a leva para a elaboração de narrativas que buscam dar sentido aos fatos. O modo de compreendermos isso é olhando para as marcas de leitura e produção que ficam nos textos, ou seja, as pegadas que ali ficam. É isto que, de maneira muito apressada, vou buscar encontrar no material que selecionei (Desconsiderei para este texto, as fotos. Elas são um caso a parte). Busco a relação entre fato e narrativa nas manchetes a ver se elas me dizem alguma coisa sobre o jornalismo e sua conexão com os acontecimentos sociais.
Pois bem, ao olhar para o material, noto, inicialmente, que todos os veículos, independente da linha editorial, aparentemente contaram a mesma história, ou seja, trouxeram as mesmas informações de fonte oficial referenciado-as nos fatos: trata-se de decisão do STF e de ação da Polícia Federal que levaram à prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro. Assinalavam, ainda, em linha de apoio, que a prisão não se tratava do cumprimento da pena a que Bolsonaro fora condenado por tentativa de golpe de estado. Portanto, do ponto de vista objetivo, da referência aos fatos, os veículos de imprensa aqui inventariados apresentaram o fato de tal modo que o leitor de qualquer um deles saberia dizer o que aconteceu a quem, quando e onde. Considero esse ponto importante na medida em que ao jornalismo cabe, de certa forma, a compilação das informações de interesse da sociedade e que há um nível desta produção jornalística que é objetiva no sentido de que referencia o objeto da notícia: o fato.
No entanto, mesmo assim, há diferenças que indicam certa tomada de posição. Para demonstrar isso, separei as manchetes em grupos por similaridade de texto, reunindo ao fim cinco grupos mais ou menos homogêneos. O primeiro grupo é formado pelas manchetes que apontam a prisão de Bolsonaro como resultado de um “pedido da Polícia Federal”. Neste grupo estão as manchetes do Estadão, do Brasil Paralelo, do Correio do Povo e do A Hora do Sul, expressas na fórmula: “Bolsonaro + preso + preventivamente + pedido da PF”. Cada uma das manchetes, no entanto, está sob cartolas ou temas distintos: No Estadão e Correio do Povo é tema da Política; no Brasil Paralelo é Atualidades e no A Hora do Sul é assunto de Polícia. Essas manchetes aparecem como uma ação da Polícia Federal contra Bolsonaro, ou seja, o criminoso é pego em flagrante delito pela polícia que solicita autorização para prendê-lo. A responsabilidade pelo fato é atribuída à PF.
Um segundo grupo se caracteriza pelos veículos que atribuem o fato à ação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que mandou prender ou determinou a prisão de Bolsonaro. O Globo (na editoria de Política), Gazeta do Povo (na editoria República) e Veja (em Brasil) apontam para o protagonismo do ministro. Ou seja, o responsável por levar Bolsonaro à cadeia antes do início do cumprimento da pena é o STF por meio de seu ministro Alexandre de Moraes.
Ainda com foco na ação de Alexandre de Moraes, o terceiro grupo de manchetes vai destacar as motivações que o levaram a ordenar a prisão o ex-presidente. Em Gaúcha/ZH, sob a cartola Medida Cautelar lemos: “Moraes cita rompimento de tornozeleira eletrônica de Bolsonaro como tentativa iminente de fuga”. No bahiano Correio, na editoria Brasil, a manchete anuncia: “Bolsonaro tentou romper tornozeleira, diz Moraes em decisão que determinou prisão”. E no portal NSC, na editoria de Política, noticia-se: “Bolsonaro violou tornozeleira eletrônica e vigília poderia englobar plano de fuga, diz Moraes”. Aqui a decisão do ministro se revela como o antagonismo entre o “juiz e o meliante”, na medida em que a ação de Bolsonaro – em evidente descumprimento de medidas cautelares – justifica a reação de Moraes. Como no segundo grupo, Moraes é o agente, mas ao contrário do anterior, aqui é o agente que atua segundo fundadas razões. A ação do juiz está fundamentada na lei.
Um quarto grupo é aquele em que se destaca o agente da prisão, ou seja, a Polícia Federal, como na versão do Diário de Pernambuco, sob a cartola Operação: “Ex-presidente Bolsonaro é preso pela PF em Brasília”; do Correio Brasiliense, sob a cartola Trama Golpista: “Jair Bolsonaro é preso pela Polícia Federal” e também do portal de notícias Brasil 247, com a cartola Urgente: “Bolsonaro é preso preventivamente pela Polícia Federal”. É o grupo de manchetes aparentemente mais objetivo, na medida em que informa protagonistas e ação, sem mais detalhes. O que muda é justamente os efeitos que produzem as cartolas que encimam as manchetes. Operação indica uma ação coordenada, portanto, denota que houve planejamento e organização para o cumprimento da medida por parte da PF. Na cartola Trama Golpista, o fato da prisão preventiva ganha contexto no longo processo de investigação, julgamento e condenação de agentes do Estado para abolir o estado democrático de direito, tendo em Bolsonaro o seu expoente e líder, segundo a Justiça. Nesse contexto, a prisão é imediatamente associada a este processo de tentativa de golpe.
Por fim, G1 e Folha de S. Paulo adotam nuances diferentes para dar a notícia. No blog da Natuza Neri no G1, “Bolsonaro é preso de forma preventiva e levado à PF em Brasília” e na Folha, “Bolsonaro é preso pela PF na reta final de processo da trama golpista”, que está sob a cartola Julgamento de Bolsonaro – Polícia Federal. Se no G1 a indicação de local é que é relevante no sentido de que o ex-presidnete foi para a PF (e não para a Papuda), na Folha, o decisivo é que a prisão parece antecipada, ou seja, prende-se Bolsonaro no exato instante em que o processo da trama golpista está próximo de ser concluído. Há quase um questionamento sobre a oportunidade de prendê-lo neste momento.
Como manifestei acima, esta pequena incursão sobre algumas manchetes que anunciaram, na manhã de sábado, 22 de novembro de 2025, a prisão preventiva de Bolsonaro, tinha como objetivo ver o que me diriam sobre o jornalismo e sua conexão com os acontecimentos sociais. Foi um convite a refletir sobre a função informativa do jornalismo e o seu papel na elaboração das narrativas que dão sentido aos fatos.
Aparentemente, neste caso particular, as manchetes não têm carimbo editorial, pois as informações estão postas de forma muito semelhante tanto em portais de notícias e jornais de esquerda, como de direita e extrema direita e tanto na imprensa corporativa e quanto na chamada mídia independente. No entanto, não podemos conhecer os efeitos de sentido apenas pelo produto. O fato de uma mesma informação ocupar as manchetes de veículos de linhas editoriais diferentes não nos permite afirmar que têm o mesmo sentido. É nas entrelinhas que mora o diabo. Por isso, é no estudo da circulação do produto jornalístico na sociedade que podemos analisar os processos sociais pelos quais se produzem os significados dos acontecimentos e modo como se tornam hegemônicos. Isso quer dizer, finalmente, que se é importante a linha editorial de um veículo jornalístico para determinar o sentido dos acontecimentos, é também indispensável olhar para, parafraseando José Luis Braga, o que a sociedade em geral e os leitores e leitoras em particular fazem com essa produção. É ali, observando as marcas de produção e de reconhecimento, que podemos descortinar alguns efeitos de sentido sobre o que acontece na sociedade. É ali que a prisão de Bolsonaro vai ser um ato de justiça ou uma flagrante injustiça; uma medida judicial correta ou um ato de perseguição política.
Referências
Bolsonaro é preso de forma preventiva e levado à PF em Brasília
Moraes cita rompimento de tornozeleira eletrônica de Bolsonaro como tentativa iminente de fuga
A pedido da PF, Bolsonaro é preso preventivamente
Publicado originalmente em objETHOS.
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Ricardo Z. Fiegenbaum é Jornalista e professor, doutor em Ciências da Comunicação e pesquisador do objETHOS.
