(Foto: Jan van der Wolf/Pexels)

“O papel do jornalista é entender o que está acontecendo para então contar aquilo da melhor maneira. É uma profissão que nos dá o privilégio – e, muitas vezes, a angústia – de estar sempre descobrindo algo novo sobre o mundo em que vivemos”. Esse trecho é parte de um texto publicado na newsletter do podcast Rádio Novelo Apresenta, assinado pelas repórteres e roteiristas Bia Guimarães e Carolina Moraes e pela editora executiva Natália Silva. As jornalistas se referem às descobertas indigestas feitas durante a produção da série Sala de Espera — um compilado de três episódios narrativos semanais que abordam casos que ilustram as dificuldades em torno ao acesso ao aborto legal no Brasil.

O tema, tão complexo quanto relevante, foi apurado durante um ano. Bia e Carolina ouviram dezenas de fontes entre vítimas e suas famílias, profissionais das áreas médica e jurídica, políticos, ativistas e outros personagens, contrários e favoráveis, que estiveram no centro de casos recentes. O primeiro episódio foi ao ar em 10 de julho de 2025. Com duração de 1h08min, inicia contando os bastidores da suspensão do serviço de atendimento a vítimas de violência sexual pelo Hospital Vila Cachoeirinha, em São Paulo, após uma resolução do Conselho Federal de Medicina.

O assunto chegou na caixa postal da Rádio Novelo, maior produtora de podcasts jornalísticos do Brasil, há cerca de um ano. Em forma de denúncia, profissionais da saúde pública contavam em um e-mail os abusos que estavam sofrendo por trabalharem em serviços de aborto legal.

Ao lerem a mensagem, as jornalistas entenderam que um direito estava sob ameaça. Sentimento que se comprovou ao longo da apuração. Experiente no tema, Carolina Moraes é editora de podcasts na Folha de S.Paulo e também assina, ao lado de Angela Boldrini, uma investigação acerca da disputa política em torno da Clínica de Planejamento Familiar de Campo Grande (MS), considerado até agora o maior processo de aborto no Brasil. A apuração completa está no podcast Caso das 10 mil, uma série de seis episódios publicada em 2023, vencedora do prêmio International Women’s Podcast Awards na categoria de produções em língua não-inglesa.

Sala de Espera avança no debate a respeito de como diferentes atores têm atuado para atrasar — e impedir — que o procedimento seja realizado de forma legal na saúde pública brasileira. Também contribui para expor por meio de dados e entrevistas o quanto as fake news e a desinformação impactam a opinião pública, afetando diretamente uma parcela da população historicamente fragilizada.

Entre as principais vítimas atendidas pelo serviço, por exemplo, estão crianças e adolescentes violentadas, na maioria, por familiares e conhecidos. Embora discursos contrários e de senso comum disseminem que o aborto legal é praticado deliberadamente por mulheres adultas, que, supostamente, “apenas” não desejam ser mães, as reportagens comprovam outra realidade. A apuração levantou que, em 2023, apenas 154 meninas entre 10 e 14 anos tiveram acesso ao aborto legal, enquanto outras 14 mil deram à luz no mesmo período. E lembra que toda relação sexual envolvendo menores de 14 anos é considerada abuso pela legislação brasileira. Portanto, nesses casos, é garantido o direito ao aborto legal sem necessidade de autorização judicial, segundo o Código Penal brasileiro. Na prática, no entanto, o que tem ocorrido nos bastidores — e sob os olhos de parcela da imprensa — são ações para criminalizar as vítimas e suas famílias, além de profissionais e o serviço público.

Ao longo da série, é possível encontrar diferenciais nas reportagens como um discurso mais aprofundado e analítico, demonstrando a importância de uma perspectiva de gênero na cobertura jornalística. As jornalistas são didáticas em explicações médicas, por exemplo, levantando os riscos físicos e psicológicos de atrasar a gravidez a partir do segundo semestre, estratégia utilizada por agentes contrários para pressionar as vítimas a desistirem do aborto. O formato narrativo em primeira pessoa também permite que as repórteres se posicionem, sem deixar de lado a informação e a ética. De acordo com Luana Vianna e Silva (2022, p. 163), “a prática da subjetividade ressalta o que há de pessoal na atividade do repórter, favorecendo a observação de sutilezas e destacando circunstâncias contextuais e marginais do fato”. Como quando Natália Silva expõe suas conclusões a respeito de argumentos publicados em uma das fontes da reportagem, o livro “Second Trimester Abortion: Perspectives After a Decade of Experience”, editado por Gary S. Berger, William E. Brenner e Louis G. Keith, em 1981:

“Primeiro, o de que a contracepção é sempre melhor do que o aborto. Segundo, de que quanto antes um aborto for feito, melhor. E, por último… De que não importa o quanto a gente queira que isso aconteça, a necessidade de fazer aborto em gestações avançadas nunca vai deixar de existir. Eu não quero que pareça que eu estou tratando o aborto como um procedimento médico qualquer. Não é isso. Não é um procedimento trivial para nenhuma das partes envolvidas. E nem para a sociedade… Porque a gente atribui um valor pro feto. Não tanto pelo que ele é enquanto está ali no útero, mas pelo que ele pode vir a ser. Eu sei que tem muita gente que, quando ouve falar em gravidez, pensa numa gravidez que foi desejada. Em que cada semana que passa é motivo de celebração. Mas eu queria te lembrar que eu estou falando aqui de gravidezes que não foram desejadas. De meninas e mulheres vítimas de violência sexual. Para quem cada semana que passa é uma tortura. E para quem o aborto – e a indução de assistolia fetal – são o ponto final de uma história que nem devia ter começado. Uma coisa que eu pensava antes de fazer essa reportagem, e que pode ser que você pense também, era que 22 semanas é bastante tempo. São cinco meses e meio. É mais da metade de uma gestação completa, que em geral dura 40 semanas” (Sala de Espera – Parte 1, 2025, p.18-19).

Podcasts têm se tornado um meio de expressão e transmissão usado por mulheres desde as primeiras ocorrências desse formato no Brasil (Ira Croft, 2023). Os primeiros programas feitos por mulheres datam de 2005 e, desde então, pela facilidade de produção e distribuição, tornaram-se um espaço de voz, inicialmente, alternativo, que caminha para a profissionalização (Alice dos Santos Silva, 2023). De acordo com a PodPesquisa 2024–2025, realizada pela Associação Brasileira de Podcasters (ABPOD), apesar de as produções serem feitas na maioria por homens, a participação feminina tem aumentado — passando de 23,3% (2020-2021) para 35,06% (2024-2025).

Nos dois casos citados neste artigo, percebe-se que a profissionalização permite uma maior pluralidade de abordagens, garantindo que assuntos como aborto legal ganhem uma apuração mais robusta e complexa, com uma distribuição mais ampla, alcançando diferentes públicos. Sala de Espera, por exemplo, foi publicado diretamente na lista de episódios podcast Rádio Novelo Apresenta — sem estar desmembrado em uma nova playlist —, o que indica que o assunto, embora abordado sob uma perspectiva de gênero, não deve interessar apenas a mulheres, mas ao público em geral. De acordo com o mídia kit do programa, 45% da audiência é formada por homens. Os números revelam um alto alcance da série: em 30 de agosto de 2025, os dois primeiros episódios acumulavam mais de 100 mil reproduções no Spotify. O último tinha 50 mil.

Diante do debate sobre a exploração sexual infantil, em um país onde 187 estupros são registrados diariamente — vitimando, em grande parte, meninas de até 17 anos, segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, torna-se urgente que o jornalismo desdobre com profundidade as nuances de temas complexos, como o aborto legal. Para citar uma delas, falta ainda uma abordagem mais completa a respeito da prevenção desse tipo de violência.  A ampliação de vozes e a inserção de novos agentes no campo jornalístico podem impulsionar, por meio da informação, essa transformação, chamando atenção para a necessidade de políticas públicas mais seguras e efetivas para as vítimas.

Referências

BENSON, Rodney; NEVEU, Erik. Bourdieu and the Journalistic field. Cambridge: Polity Press, 2005 pp.1-28.

CROFT, Ira. A Jornada da Heroína podcaster: Como estamos criando a nossa história? Como essa jornada influencia a narrativa que estamos construindo?. In: Hack, Aline. Feminismos e Podcasts. São Paulo: Blimunda, 2022. p. [20-48].

RÁDIO NOVELO APRESENTA. Sala de Espera. Transcrição do episódio 1. Rio de Janeiro: Rádio Novelo, 2023. Disponível em: <https://tinyurl.com/y7a39wjx>. Acesso em: 30 ago. 2025.

SILVA, Alice dos Santos. Mulheres podcasters: a articulação ciberfeminista na podosfera brasileira. In: Hack, Aline. Feminismos e Podcasts. São Paulo: Blimunda, 2022. p. [154-180].

SILVA, Luana Vianna e. Jornalismo narrativo em podcasting: imersividade, dramaturgia e narrativa autoral. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2022.

Publicado originalmente em objETHOS

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Caroline dos Passos é Mestranda em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS