
(Foto: Lillian-Ross.-Portrait-of-Hemingway.-capa.-livro)
Ela conheceu Hemingway quando estava metida a escrever o perfil de um toureiro americano. Ele, quando a conheceu disse: você é a pessoa menos indicada para esse serviço. Ela prosseguiu. A matéria foi publicada. E ele escreveu elogiando.
Aliás, ela fez uma visita a ele, porque ele a convidou. Num frio de menos de dez graus, ela de casaco, congelando; ele, de sandálias, meias e camisa esporte. Desde então, correspondência foi, correspondência veio.
Ele era franco e simpático. Ela era ela. Até que, na primavera de 1950, e isso tudo é contado por ela mesma, ela escreveu um perfil sobre ele para a New Yorker, publicado na revista e depois editado em livro.
Bem, ela já era Lillian Ross, mas ainda não era a Lillian Ross que ela se tornaria, a tal dama do jornalismo. A que praticou como os outros o novo jornalismo inventado por eles na New Yorker ou qualquer outro veículo para o qual escrevessem naqueles anos.
O tal novo jornalismo pode ser traduzido em uma linha: a aplicação de recursos da ficção, da literatura, na composição do texto jornalístico. Do texto, porque se supõe que, diferente da ficção, cujo conteúdo é inventado, no jornalismo tudo tem que ser verdade.
Pois bem, o perfil apresentou o Hemingway da forma que o viu Ross. Um retrato próximo de quem acompanhou o escritor em dois dias em Nova York. Detalhe: ele já era famosíssimo nesse tempo.
O resultado foi que Ross seguiu o seu modelo de jornalismo, que ela fez e disse que era sua prática: escrever pelo interesse genuíno pelas pessoas e registrar as coisas como se passaram. E, assim, ela disse:
“Na primavera de 1950, escrevi um perfil de Hemingway para a New Yorker. Era um texto compreensivo, cobrindo dois dias que Hemingway passou em Nova York, no qual tentei descrever o mais precisamente possível como Hemingway — que tinha a ousadia de não ser parecido com ninguém mais na terra — parecia e soava quando estava em ação, conversando, entre períodos de trabalho; para dar uma imagem do homem como ele era, em sua singularidade e com sua vitalidade e seu enorme espírito de diversão intactos. Antes de ser publicado, enviei uma prova tipográfica para os Hemingway, que a devolveram com algumas correções. Em uma carta que acompanhava, Hemingway disse que achou o perfil engraçado e bom, e que havia sugerido apenas uma exclusão”.
O resto ela conta que foi uma surpresa para ela, para ele e para os editores: a reação do público. E teve de tudo. Já o perfil segue um clássico do jornalismo presente em antologias da repórter e sendo modelo, sendo falado e comentado, como aqui e agora.
Conclusão de Lillian Ross: “Na verdade, eles não gostavam que Hemingway fosse Hemingway. Queriam que ele fosse outra pessoa — provavelmente eles mesmos. Assim, chegaram à conclusão de que, ou Hemingway não havia sido retratado como realmente era ou, se ele era daquele jeito, eu não deveria ter escrito sobre ele de maneira alguma”
A “culpa” não era dela, que só tinha feito o que ela sabia fazer, e continuou: transmitir apenas o que vira e ouvira sem comentários ou expressar qualquer opinião ou julgamento. Eis o método Lillian Ross. O caso é que ele não se chateou. Até escreveu para ela dizendo isso. Não se preocupe. É isso mesmo. Amizade e cartas continuaram.
E agora, o que me dizem, senhores?
“Ernest Hemingway, que pode muito bem ser o maior romancista e contista americano de nossos dias, raramente vinha a Nova York. Por muitos anos, ele passou a maior parte do seu tempo em uma fazenda, a Finca Vigia, a nove milhas de Havana, com sua esposa, nove empregados, 52 gatos, 16 cães, cerca de 200 pombos e três vacas. Quando ele vinha a Nova York, era apenas porque precisava passar pela cidade a caminho de outro lugar”.
“No final de 1949, a caminho da Europa, ele parou em Nova York por alguns dias. Eu havia escrito para ele perguntando se poderia vê-lo quando estivesse na cidade, e ele me enviou uma carta datilografada dizendo que seria ótimo e sugerindo que eu o encontrasse no aeroporto”.
E então, ela descreve como ele estava e o que usava quando foi encontrá-lo no aeroporto: camisa de lã vermelha xadrez, gravata de lã estampada, suéter de lã e jaqueta de tweed marrom justa nas costas e com mangas que pareciam curtas pra ele. E, nos óculos, ele colocou um pedaço de papel para não machucar o nariz. Era preciso repará-los.
Lillian Ross funciona como uma câmera. Registra o figurino, as declarações, os gestos, as atitudes e as interações entre as suas “personagens”. Todo mundo age, fala. As coisas acontecem e as pessoas interagem. Espaços e coisas são descritos e aparecem.
Lillian Ross registra tudo. Ela participa. Ele a convida para comprar um casaco e arrumar seus óculos e ela responde: “Eu disse que ficaria feliz em ajudá-lo a fazer as duas coisas e, em seguida, lembrei-o de que ele havia dito que queria ver uma luta”.
Lillian Ross nunca está oculta. Ela é a repórter e é parte da reportagem. Uma big sister que sobe até o quarto do hotel com o casal, porque é convidada. É das suas máximas só estar onde é convidada. Bebe champanhe com ele, e ouve, ouve, ouve e observa.
Ele não para de falar e a sra. Hemingway intervém, diz isso, diz aquilo. E precisavam comprar escovas de dentes!
O que Ross faz é registrar o trivial, o cotidiano, o banal, o humano. Parte da vida de qualquer um, inclusive do escritor famoso. Hemingway bebe, Hemingway conversa, Hemingway fala dos seus livros, da forma como escreve, do que escreve, o que pensa. E ela só ouve, ouve, ouve e registra. Eles comem. Eles conversam.
Passa o primeiro dia. Ela conta que foi acordada por um telefonema dele para ir ao hotel. Tudo é narrado e os pormenores reforçam cada vez mais o aspecto banal que é a vida nos seus acontecimentos diários. Mesmo você sendo Hemingway.
É o interessante da vida nas pequenas coisas, comentários, gestos. Seja o caviar, o champanhe, a roupa, o que se fala. É o trivial e o dia a dia que diz quem somos mesmo que sejamos um escritor famoso com hábitos luxuosos.
Na pena de Lillian Ross, tudo isso se torna parte da cena, como poderia ser um pãozinho com manteiga e um copo de água. Não há julgamento, deslumbramento, opinião.
Ele sempre está fazendo alguma coisa e conta que está fazendo alguma coisa. Ele não tem pressa. Está frio lá fora e ele continua a beber champanhe. Ele conta uma história, comenta, ri.
Eles conversam, mas parece que só ele fala: “Hemingway sentou-se no sofá e acenou com a cabeça bruscamente um par de vezes para ter certeza de que tinha a minha atenção”.
E sempre repete a pergunta retórica que ele mesmo responde: E agora, o que me dizem, senhores? É o seu cacoete. Ele diz: filha, eu sou um homem esquisito e tenho 50 anos. O que me dizem, senhores?
A ideia do perfil como um retrato de um instante aqui se consolida, ou melhor, aqui se afirma o modelo enquanto prática e resultado. O que muda é que Lillian Ross mudou o retrato dos “grandes homens”. Saiu o ar solene, saiu a pompa. O íntimo e o cotidiano viraram objeto para a arena pública.
A pergunta que fica é: por que o jornalismo passou a se interessar pelo perfil ou por que o perfil se tornou um gênero jornalístico e permanece?
Chegou o almoço. As ostras e o vinho: “Não podíamos almoçar sem uma garrafa de Tavel, disse Hemingway, e não começamos a comer senão depois que o garçom a trouxe”. Ross já traduz os códigos do escritor, compartilha com o leitor, e nos põe assistindo à cena.
Ross nos coloca na opção de espectadores: “Ele assentiu com a cabeça. Depois balançou a cabeça várias vezes para mim — sua forma de pedir atenção”. Os gestos, as falas. Somos testemunhas tanto quanto Ross. Só que ela está lá, vê, registra, toma o vinho e almoça.
Ela o acompanha às compras. E acontece tudo que acontece quando vamos às compras. O vendedor é paciente; nós, os indecisos. As opções, inúmeras. Prova, reprova, escolhe. No outro dia, “Papa” já envergava o casaco novo.
Papa era a forma como os íntimos o tratavam e é isso que ela mostra: intimidade. Eis mais uma das sutilezas que constroem a robustez do seu perfil. Papa está orgulhoso do seu vigor, se entedia, se impacienta, fica feliz, bem-humorado, como todos nós.
Papa está vivo e é gente como a gente, sujeito a tudo que nos ocorre e sentimos e a forma como reagimos. O humano é de estações. E o retrato de Ross vai além, porque retratar Hemingway é de alguma forma retratar a todos nós.
“O telefone tocou, e Hemingway tirou do gancho, escutou, disse algumas palavras, e depois se voltou para nós e disse que uma empresa chamada Endorsements, Inc., lhe tinha oferecido quatro mil dólares para ele posar como Homem de Distinção. ‘Eu disse a eles que não beberia aquela porcaria por quatro mil dólares. Informei-lhes que sou homem de champanhe. Estou tentando ser um cara legal, mas não é coisa fácil. O que se ganha em Boston, você perde em Chicago’”.
Eis as linhas finas de Ross sobre Hemingway.
E ponto final.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
