
(Foto: Andre Moura/Pexels)
Nas telas de todo o Brasil, uma das tramas mais icônicas da teledramaturgia brasileira caminha para seu desfecho. Como num déjà vu repaginado, volta a ecoar no imaginário brasileiro uma das perguntas mais “viralizadas” vinda, ironicamente, de uma época ainda analógica: afinal quem matou Odete Roitman?
Enquanto nos preparamos para sermos surpreendidos por Manuela Dias, autora do remake de Vale Tudo, vale lembrar, pegando carona no saudosismo melancólico do público que vem consumindo avidamente a releitura de antigos clássicos, a comoção midiática que esse mistério gerou na versão original de 1988, escrita pelos dramaturgos Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.
Foram doze dias de um memorável mistério, que se iniciou na noite de Natal de 1988 (destaque para a data escolhida a dedo para apimentar a ceia de centenas de famílias brasileiras), com a cena instigante da vilã vivida pela eterna Beatriz Segall sendo atingida por tiros a partir da visão cênica do ainda indecifrável assassino (ou assassina!) para, somente, em 6 de janeiro do ano seguinte, o foco da câmera mudar de direção e finalmente o Brasil inteiro poder assistir o rosto revelado em resposta à pergunta que todos se faziam.
Durante esse período, todo brasileiro se sentiu um pouco detetive, e esse engajamento foi calculadamente alimentado por inteligentes e oportunas iniciativas de marketing.
Como esquecer daquele famoso caldo da galinha azul que lançou uma campanha nacional com promessas de prêmios para aqueles que acertassem a resposta? O resultado: aproximadamente três milhões de cartas recebidas — cartas, não e-mails, postagens ou hashtags! Inquestionavelmente uma marca e tanto.
A ideia de conectar um tempero de fácil acesso, amplamente consumido por uma gama variada de famílias brasileiras com o maior mistério da então novela de horário nobre gerou uma combinação tão poderosa que, ainda hoje, eu, com 45 anos de idade (ou seja, uma criança de 8 anos à época) só de escrever essas linhas me pego automaticamente cantarolando o jingle da referida marca, podendo apostar que o leitor 40+ esteja fazendo o mesmo!
E por falar em aposta, não foram só campanhas publicitárias que pegaram carona nesse fenômeno. Em reportagem publicada à época, só no Rio de Janeiro, aproximadamente 40 mil pessoas participaram do Jogo do Bicho com seus palpites acerca da resposta, provando mais uma vez que costumes (ainda que vestidos de jogos) se comunicam e talvez por isso seja tão importante jamais subestimar o papel das novelas no agir e pensar coletivo (mas isso é papo para outra reflexão!).
Mais do que um drama muito bem escrito, a saga da morte de Odete Roitman consolidou no imaginário brasileiro o selo definitivo do alcance inquestionável da teledramaturgia, gerando ainda um case emblemático de como conjugar com sucesso marketing e entretenimento, combinação, a saber, tradicionalmente e amplamente utilizada na indústria audiovisual.
Nesse sentido, vale ressaltar o uso do denominado “Product Placement”, uma das principais técnicas de marketing e fonte de financiamento para produção audiovisual, através da qual são inseridos dentro dos conteúdos audiovisuais produtos e marcas de forma natural e integrada dentro da narrativa, podendo ou não ter interação direta com os personagens; o que reflete, inclusive, nos termos contratuais e de negociação com os respectivos atores e criativos considerando o grau de envolvimento destes com tais ações publicitárias.
E se, em 1988, através de um conteúdo exclusivamente veiculado em uma única janela de exibição, a TV aberta, o Brasil já parou por este mistério, o que esperar dessa versão de 2025, num mundo conectado através da internet, tendo as redes sociais como fortes aliadas na propagação de ideias e engajamento?
Há quem espere que o fenômeno seja menor, justamente pela ampla gama de opções de consumo de conteúdo e atenção diluída do público. Por outro lado, aprendemos já a não subestimar a inteligência criativa do brasileiro, o que nos deixa na legítima expectativa de sermos surpreendidos com uma ação transmidiática boa o suficiente para ser pauta do artigo de mais alguém daqui a 37 anos!
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Carol Bassin é advogada e sócia fundadora do escritório Bassin Advocacia Cultural, especializado em propriedade intelectual, legislação de incentivo e proteção autoral. É também membro efetivo da Comissão de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ.
