Sábado, 31 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

Atenção ao jornalismo ambiental deve ser prioridade no país da COP 30

(Foto: Anna Shvets/Pexels)

Enquanto o Brasil se prepara para sediar a Cúpula Climática da Organização das Nações Unidas (COP30), o debate sobre questões ambientais e mudanças climáticas passa a ter mais espaço na mídia brasileira. Apesar disso, esta temática ainda fica restrita a pautas factuais, como eventos, discussões políticas e desastres ambientais. São poucos os jornalistas e veículos especializados, considerando a relevância da agenda para o país. Aqueles especializados ou que se dedicam com mais frequência muitas vezes carecem de infraestrutura e segurança para realizar seu trabalho. No comentário desta semana, busco refletir sobre a necessidade de se investir em ações pautadas para ampliar a proteção e a saúde desse grupo profissional, que ainda é subrepresentado em estudos sobre a profissão.

Jornalistas ambientais brasileiros vivem em uma arena perigosa, palco de especulação econômica, discurso populista, campanhas de desinformação e crime organizado. Eles trabalham em áreas de risco, localidades remotas, desastres ambientais, protestos, etc., expostos a diferentes tipos de riscos.

Em reportagem para a Latam Journalism Review, a jornalista Marta Szpacenkopf aborda o duplo desafio dos jornalistas ambientais latino-americanos: “sentem o mesmo medo que as outras pessoas diante da crise climática”, enquanto estão “na linha de frente da devastação ambiental em uma região que também é afetada por desigualdades estruturais”. Muitos atuam em localidades onde também têm suas casas e famílias, sendo testemunhas e repórteres de destruições causadas pela ação humana ou pelo aquecimento global. Aliado a isso, precariedade laboral e instabilidade política amplificam os efeitos da cobertura em meio ambiente na região.

De acordo com um survey global realizado pela Unesco e Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), 70% dos 905 participantes informaram ter sofrido algum tipo de ataque ou ameaça devido ao seu trabalho. Pressão psicológica foi reportada por 85% deles, enquanto seis em cada dez foram expostos a assédio online. Ataques físicos foram reportados por 41%, e quase um quarto enfrentou ações judiciais.

Depois de ameaças à integridade física ou psicológica, falta de recursos, baixos salários, dificuldade para acesso a fontes ou dados, pressão para trabalhar com múltiplas plataformas e ataques judiciais sistemáticos estão entre os principais estressores de jornalistas ambientais, de acordo com uma pesquisa liderada pelo professor de psiquiatria da Universidade de Toronto, Dr. Anthony Feinstein. Foram consultados 298 jornalistas em 90 países. Cerca de 60% deles apresentaram algum tipo de sofrimento psicológico, como ansiedade, depressão, transtorno de stress pós-traumático ou sofrimento moral. Entre os problemas mais frequentes verificados estão sintomas moderados a severos de ansiedade (48%) ou depressão (42%), e transtorno de stress pós-traumático (22%). Mais da metade não tem acesso a recursos para tratamento de saúde mental ou suporte da empresa jornalística onde labora. Estes são resultados preliminares do estudo, divulgados em um evento do Oxford Climate Journalism Network (OCJN) em maio deste ano.

Mudanças climáticas e pautas ambientais estão entre os primeiros pontos de preocupação para os próximos dois anos, ao lado de desinformação e polarização política, segundo relatório do World Economic Forum. Temas relacionados a estes tópicos são frequentemente pautados por discursos extremistas e ataques contra adversários políticos. No Brasil, ambientalistas, cientistas e jornalistas ligados a estes temas são alvo frequentes de campanhas desinformativas e assédio online.

Debater os impactos e riscos da cobertura climática e ambiental é urgente diante do avanço do aquecimento global e, no caso brasileiro, da intensificação de conflitos por terra e de licenciamento, além da desinformação endêmica. Este grupo de trabalhadores está ainda mais vulnerável ao adoecimento mental por conta da natureza da sua atividade, que alia riscos físicos inerentes ao trabalho em áreas remotas, de conflito e falta de infraestrutura, e simbólicos, como deslegitimização e assédios.

No Brasil, a falta de suporte e proteção afeta a todos os profissionais da imprensa, porém alguns são mais expostos que outros. É preciso investir em treinamento e, acima de tudo, desenvolver ações de atenção ao bem-estar psíquico da categoria. Neste sentido, empresas jornalísticas precisam se responsabilizar pela proteção de seus colaboradores (CLT ou não), desenvolvendo protocolos adequados para coberturas de risco, assim como governos e sociedade civil organizada desenvolveram ações de conscientização e suporte que atendam às especificidades dos jornalistas – e comunicadores – ambientais.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Janara Nicoletti é doutora em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora associada ao Observatório da Ética Jornalística (objETHOS/UFSC)