Sábado, 31 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

O ciclo do noticiário político na Bahia

(Foto: Karolina Grabowska/Pexels)

O noticiário político se comporta como um ciclo repetitivo. Os protagonistas mudam, os contextos variam, mas o pano de fundo permanece similar. Muitas das pautas que ganham destaque na Bahia se repetem em outros estados e ocupam espaço nos jornais impressos, nos sites, nas rádios e nos telejornais. Ainda assim, há acontecimentos tipicamente baianos – com características únicas que marcam a cobertura política local, revelam o vínculo entre política e cultura e conferem a ela uma identidade própria.

Como em qualquer democracia com eleições livres, o ciclo do poder se renova a partir das urnas. E, consequentemente, o ciclo do noticiário político também se reinicia com cada pleito. Na Bahia, esse movimento não é diferente. Tudo começa com as eleições, quando prefeitos, governadores, vereadores e deputados são escolhidos. A partir daí, uma série de etapas marca a cobertura jornalística nos meses seguintes.

Logo após a definição dos eleitos, o foco do noticiário se volta para a montagem das equipes de governo, especialmente a escolha dos secretários. Essa fase é decisiva para entender os rumos que a nova gestão pretende tomar. Secretarias como Saúde, Educação, Fazenda e Casa Civil ganham destaque, pois suas lideranças tendem a sinalizar as prioridades e estratégias administrativas. O secretário da Saúde, por exemplo, é uma peça-chave, tanto pelo volume orçamentário da pasta quanto pelo impacto direto na vida da população. Já o titular da Fazenda indica o controle sobre as finanças públicas e o espaço fiscal da nova gestão.

Ainda nesse período de transição, o jornalista político precisa acompanhar atentamente a diplomação dos eleitos – cerimônia que ocorre no fim do ano e oficializa o resultado das urnas. Em 1º de janeiro, o ciclo político prossegue com a posse dos novos governantes. O discurso proferido pelo prefeito ou governador na ocasião serve como um mapa simbólico: revela intenções, estabelece metas e, por vezes, contradiz o que foi dito durante a campanha. É papel do jornalista confrontar essas falas e cobrar coerência entre promessa e prática.

Em Salvador, o início do ano também é marcado por eventos tradicionais que se entrelaçam com a política. Um deles é a Lavagem do Senhor do Bonfim, que acontece na quinta-feira que antecede o segundo domingo após o Dia de Reis (6 de janeiro), quando populares e autoridades percorrem um trajeto entre as Igrejas da Conceição da Praia e do Bonfim. O comportamento do público – aplausos ou vaias – transforma o evento em uma espécie de termômetro da popularidade dos políticos presentes.

A devoção ao Senhor do Bonfim em Salvador começou no século XVIII, após o capitão Teodósio Rodrigues Faria sobreviver a um naufrágio e erguer uma capela em agradecimento. A igreja rapidamente virou destino de romarias e ponto turístico importante. A tradicional Lavagem do Bonfim é organizada pelo poder público e ganhou força no século XIX. Nela, muitos vestem branco em homenagem a Oxalá, inclusive as autoridades públicas, com quem o Senhor do Bonfim é associado.

Logo após a Festa do Bonfim, outro grande destaque no calendário cultural e religioso de Salvador é a Festa de Iemanjá, celebrada em 2 de fevereiro no bairro do Rio Vermelho. A tradição teve início em 1924, quando pescadores da Colônia Z-1 – a primeira colônia de pesca da Bahia – realizaram a homenagem à divindade. Desde então, o evento cresceu e se consolidou como uma das maiores expressões do sincretismo religioso afro-brasileiro. No candomblé, Iemanjá é cultuada como a orixá das águas salgadas, senhora dos mares.

Mais do que uma cerimônia religiosa e cultural, a festa também se transforma em palco político. É comum a presença do governador, prefeito, vereadores e deputados, que aproveitam a ocasião para reforçar vínculos com a população e demonstrar afinidade com as tradições populares. Nesse contexto, tanto a participação quanto a ausência de determinadas figuras públicas ganham visibilidade e repercutem no cenário local.

Ainda em fevereiro, dois momentos importantes fecham esse primeiro bloco do ciclo: a abertura dos trabalhos legislativos e a eleição da presidência da Assembleia Legislativa da Bahia. Nessa ocasião, o prefeito e o governador apresentam suas mensagens ao Legislativo, com propostas e balanços, o que permite avaliar o tom político da nova gestão. A eleição para a presidência da Assembleia, por sua vez, serve como indicador das alianças e da base de apoio do governo.

Entre fevereiro e março, o Carnaval toma conta de Salvador e, mais uma vez, a política se insere no calendário festivo. Disputas entre a prefeitura e o governo do estado costumam surgir em torno da organização da festa e da ocupação de espaços simbólicos, como os camarotes no Campo Grande. O evento é também um palanque informal: candidatos e pré-candidatos circulam, testam sua popularidade e firmam alianças. A cobertura jornalística ganha ritmo intenso e atenção nacional.

Nos meses seguintes, outro marco tradicional da cobertura é o balanço dos 100 primeiros dias de governo. Trata-se de um recorte simbólico, mas eficaz para avaliar o início da gestão. O jornalismo analisa avanços, retrocessos, promessas cumpridas e as primeiras decisões políticas que dão pistas sobre o estilo e os rumos do novo governo.

Foi o ex-presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt que inventou essa marca. Os primeiros 100 dias do governo Roosevelt terminaram em 12 de junho de 1933, mas ele os destacou apenas em 25 de julho. As medidas, que foram aprovadas rapidamente pelo Congresso, faziam parte do New Deal, programa para combater a Grande Depressão iniciada em 1929. Os “100 dias” viraram referência no mundo para avaliar novos governos.

Ao longo do ano, a atenção se volta aos bastidores da política: articulações partidárias, mudanças em secretarias, apresentação de projetos de lei, e movimentações que antecipam disputas eleitorais futuras. Entender essas engrenagens é crucial para interpretar a lógica do poder e das decisões administrativas. Muitas vezes, o que está por trás de uma proposta são interesses de grupos específicos, aliados políticos ou estratégias eleitorais.

No mês de junho, a tradicional festa de São João também mobiliza o meio político. Autoridades como o governador da Bahia, deputados estaduais e federais costumam visitar o interior do estado para participar das celebrações organizadas pelas prefeituras. Em geral, eles marcam presença nas cidades onde têm base eleitoral ou apoio de prefeitos e vereadores para reforçar alianças políticas e fortalecer seus vínculos com as lideranças locais. Essas visitas costumam render discussões políticas e eleitorais, já que o momento é aproveitado para consolidar apoios e articular estratégias.

Em julho, ganha protagonismo o 2 de Julho – a Independência da Bahia. A data cívica-popular reúne autoridades e é tradicionalmente coberta com destaque pela imprensa. O cortejo pelas ruas de Salvador atrai políticos de todo o país – inclusive presidente da República – especialmente em anos eleitorais. A imprensa observa com atenção: quem comparece, como o público reage, quanto tempo permanecem no evento, com quem caminham – tudo vira sinal a ser interpretado.

Embora com menor destaque, o 7 de Setembro – Dia da Independência do Brasil – também integra o calendário da cobertura política. Na Bahia, a data tem peso simbólico reduzido em comparação ao 2 de Julho, quando, em 1823, as tropas portuguesas foram expulsas da cidade. A historiografia registra que os baianos foram os que mais lutaram e sofreram pela independência, em um confronto que mobilizou mais de 16 mil pessoas do lado brasileiro e resultou em centenas de mortes. Ainda assim, o 7 de Setembro merece atenção: a presença (ou ausência) de autoridades, o tom dos discursos e as mensagens transmitidas são analisados e repercutem na imprensa local.

À medida que o ano avança, começa a se desenhar o próximo ciclo eleitoral. Em ano pré-eleitoral, é comum que secretários e dirigentes de empresas públicas deixem seus cargos para disputar eleições. Inicia-se, então, a pré-campanha: nomes são lançados, alianças começam a se formar, e a cobertura política passa a mapear o cenário das futuras disputas por cargos do Legislativo e Executivo.

Assim, o ciclo do noticiário político na Bahia se estrutura em etapas bem definidas – eleição, posse, nomeações, festas populares, disputas institucionais, reestruturações administrativas e movimentações eleitorais. Para o jornalista político, entender essa lógica é essencial. E para o público, acompanhar esse ciclo ajuda a compreender melhor os caminhos do poder e os impactos que ele gera na vida cotidiana.

Referências

LAVAREDA, Antonio. Os pagadores de promessas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 abr. 2023. Opinião. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2023/04/os-pagadores-de-promessas.shtml. Acesso em: 18 maio 2025.

RAMOS, Cleidiana Patricia Costa. Festa de verão em Salvador: um estudo antropológico a partir do acervo documental do jornal A Tarde. 2017. 363 f. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Salvador, 2017.


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Rodrigo Daniel Silva é jornalista e mestre em Comunicação Política pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). É editor de Política do jornal Correio.