Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Sobre jornalismo responsável, prevenção ao suicídio e dignidade humana – o setembro amarelo

(Imagem: Divulgação/setembroamarelo.org.br/participe/)

Setembro Amarelo é o mês dedicado à prevenção do suicídio. A campanha acontece no Brasil desde 2015, resultado de um esforço conjunto entre a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina (CFM), mas se tornou símbolo mundial de luta depois que Mike Emme, de 17 anos, cometeu suicídio nos Estados Unidos, em 1994. Na ocasião, os pais de Mike começaram a distribuir fitas amarelas em seu funeral, causando um efeito em cascata e que acabou resultando no Programa Fita Amarela de prevenção aos casos de suicídio.

No jornalismo, o Setembro Amarelo se torna também uma oportunidade para superar o tabu na abordagem do tema, que pelo menos durante este mês acaba tendo um tratamento, em tese, mais refletido. Entre os documentos que norteiam a produção jornalística nas instituições e em empresas jornalísticas, existem desde aqueles que orientam brevemente sobre a decisão de noticiar ou não um caso de suicídio (Martins, 1997), até outros, como o Manual de Redação da EBC (EBC, 2013), que recomendam que o tema só seja tratado sem restrições quando a pauta se impuser como uma questão de saúde pública.

Em artigo que relaciona a perspectiva dos direitos humanos e a dignidade na abordagem jornalística sobre suicídio, Vieira e Raddatz (2019) se valem de dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) para destacar que o fenômeno apresenta índices muito altos, sendo a segunda uma das principais causas de morte entre jovens de 15 até 29 anos no mundo. “A morte autoprovocada é o fenômeno que chamamos de suicídio. A sua ocorrência é observada em todas as culturas, com diferentes motivações e manifestações” (Vieira; Raddatz, 2019, p. 193).

Para as autoras, a responsabilidade do jornalismo deve ir além da definição de critérios sobre quando noticiar ou não um suicídio:

O jornalismo pode ser um campo mediador na sociedade para a humanização do tema do suicídio, por isso, além de o jornalista conhecer técnicas indicadas para o trato deste tipo de informação, também é importante que haja a preocupação de inserir o tema de modo mais profundo, tratando-o na forma de debate e reportagens que abordem a amplitude da questão, sem sensacionalismo, curiosidade ou preconceito (Vieira; Raddatz, 2019, p. 191).

Considerando a mesma perspectiva, que correlaciona os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o direito fundamental à informação, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (Fenaj, 2007) também pondera que o jornalismo não deve divulgar informações de caráter mórbido e sensacionalista (Artigo 11º, inciso II), e que deve ser preciso e responsável ao fundamentar notícias de interesse público e tratar todas as pessoas com o devido respeito (Artigo 12º).

Reconhecendo a importância da atividade jornalística na cobertura do tema, em 1999, a OMS lançou o livreto Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da mídia – atualizado de tempos em tempos. Apesar de ponderar que a maneira como a mídia cobre o assunto pode contribuir para a ocorrência de outros suicídios, o documento busca contribuir para a cobertura responsável, fornecendo orientações básicas e parâmetros técnicos para o trabalho jornalístico.

“O relato de suicídios de uma maneira apropriada, acurada e cuidadosa, por meios de comunicação esclarecidos, pode prevenir perdas trágicas de vidas” (OMS, 2000), registra o manual. Na relação sobre o que não fazer ao cobrir casos de suicídio, a Organização lista: não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas; não informar detalhes específicos do método utilizado; não fornecer explicações simplistas; não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso; não usar estereótipos religiosos ou culturais; e não atribuir culpas.

Quanto às recomendações para uma cobertura responsável sobre o tema, entre outros aspectos, a OMS destaca: trabalhar em conjunto com autoridades de saúde na apresentação dos fatos; referir-se ao suicídio como suicídio “consumado”, não como suicídio “bem sucedido”; apresentar somente dados relevantes; destacar as alternativas ao suicídio; fornecer informações sobre números de telefones e endereços de grupos de apoio e serviços onde se possa obter ajuda; e mostrar indicadores de risco e sinais de alerta sobre comportamento suicida.

Mas, para além de setembro, qual é o papel do jornalismo?

Mais do que esforços concentrados no mês de setembro, a prevenção ao suicídio também se relaciona às condições de vida e como elas podem ser mais ou menos penosas para determinados grupos sociais. Monari e Bertolli Filho (2019), nesse sentido, já ilustraram como o silêncio sobre o suicídio de adolescentes e jovens negros no Brasil é revelador sobre a maneira como a questão de saúde pública também demarca a incidência de problemas sociais mais complexos e que demandam enfrentamento, como o racismo e o preconceito.

Em um artigo opinativo sobre o tema, Juvenal Araújo expõe que, segundo o Ministério da Saúde, entre 2012 e 2021, “a taxa de suicídio entre adolescentes e jovens negros no Brasil cresceu mais de 60%, enquanto entre os não-negros houve uma redução de 17%”. Ao se questionar sobre o que estaria contribuindo para essa situação, Araújo destaca a complexidade da questão:

Falamos de jovens que crescem ouvindo que são suspeitos antes de serem notados por seus talentos. Que veem seus corpos hipersexualizados, sua estética desvalorizada e suas vozes silenciadas em espaços de decisão. Que convivem com a insegurança alimentar, a ausência de políticas públicas nos territórios periféricos e o racismo estrutural presente nas escolas, no mercado de trabalho, nos atendimentos de saúde (Araújo, 2025).

Para além dos cuidados éticos e preocupações técnicas, portanto, o jornalismo precisa estar atento ao contexto mais amplo, ao que cotidianamente impõe o sofrimento de existir (Vieira; Raddatz, 2019). Este esforço demanda superar lógicas de exclusão e de invisibilização, inclusive dentro da própria profissão. É preciso que a atividade jornalística esteja, sim, comprometida com a cobertura responsável sobre suicídio, mas que, sobretudo, se comprometa também, de maneira igualmente atenta, com o respeito integral aos direitos humanos – em especial, o direito à dignidade e à vida.

Referências

ARAÚJO, Juvenal. Quando a dor grita em silêncio: o alerta sobre o suicídio entre jovens negros no Brasil. O Fator, 2025. Disponível em: https://ofator.com.br/opiniao/quando-a-dor-grita-em-silencio-o-alerta-sobre-o-suicidio-entre-jovens-negros-no-brasil/. Acesso: Set. 2025.

EMPRESA Brasil de Comunicação. Somente a Verdade. Manual de Jornalismo da EBC. Brasília: EBC, 2013. Disponível em: https://www.ebc.com.br/sites/_institucional/files/manual_de_jornalismo_ebc.pdf. Acesso: Set. 2025.

FEDERAÇÃO Nacional dos Jornalistas. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Brasília: Fenaj, 2007. Disponível em: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2014/06/04-codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf. Acesso em: Jul. 2025.

MARTINS, Eduardo. Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997. Disponível em: https://fasam.edu.br/wp-content/uploads/2020/07/Manual-de-Reda%C3%A7%C3%A3o-e-Estilo-Estad%C3%A3o.pdf. Acesso: Ago. 2025.

MONARI, A. C. P.; BERTOLLI FILHO, C. Entre o debate público e o silêncio: análise da cobertura jornalística online sobre a questão do suicídio de adolescentes e jovens negros no Brasil. RECIIS13(4), 2019. https://doi.org/10.29397/reciis.v13i4.1853

ORGANIZAÇÃO Mundial de Saúde. Prevenção do Suicídio: Um Manual Para Profissionais da Mídia. Genebra: OMS, 2000. Disponível em: https://abeps.org.br/wp-content/uploads/2020/10/OMS-Manual-de-prevenc%CC%A7a%CC%83o-do-suici%CC%81dio-para-profissionais-da-mi%CC%81dia.pdf. Acesso: Set. 2025.VIEIRA, Laura Degliuomini Lanzarin Venite; RADDATZ, Vera Lúcia Spacil. Direitos humanos e dignidade na abordagem jornalística sobre o suicídio. In: LUCAS, Douglas Cesar; et al. (Orgs.). Direitos Humanos e Democracia em Tempos de Crise. A proteção jurídica das minorias. Porto Alegre: Editora Fi, 2019.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Aline Rios é Pesquisadora do objETHOS e doutoranda no PPGJor/UFSC