
(Foto: Jakub Zerdzicki/Pexels)
Ao longo da história, a notícia foi concebida como o relato objetivo e factual de acontecimentos recentes, capaz de informar a sociedade sobre temas de relevância pública (Schudson, 2010). No entanto, no século XXI, esse conceito se transforma diante das inovações tecnológicas, sociais e culturais, como a digitalização, a mediação algorítmica e o excesso de informações circulando em tempo real. A convergência midiática e a participação ativa do público na curadoria de conteúdos impulsionados pelas redes sociais redefinem o papel do jornalismo na sociedade contemporânea.
Essa transformação exige uma reflexão profunda sobre o que constitui uma notícia nos novos tempos e quais os desafios para o jornalismo nesse cenário. Como garantir relevância e credibilidade diante de formas aceleradas de consumo, produção e circulação da informação?
A resposta parece indicar um tensionamento entre os princípios jornalísticos tradicionais e as novas realidades digitais, com o desafio de manter o compromisso com a ética, a veracidade e o interesse público. Além disso, a polarização e a radicalização política desafiam jornalistas a manterem a imparcialidade e a objetividade, princípios que se constituíram como fundamentais da profissão.
Uma tendência preocupante nos meios de comunicação locais é a priorização de matérias pontuais, fragmentadas e “inusitadas” em detrimento de investigações mais amplas e profundas sobre questões de interesse público. O buraco de rua na via isolada se torna matéria ao vivo com espaço privilegiado em horário nobre enquanto temas mais abrangentes e de maior complexidade, como corrupção ou má gestão de recursos públicos, ficam relegados ou são superficialmente tratados.
Não se constrói uma visão integral dos problemas de um bairro ou comunidade; prevalecem inserções rápidas, sensacionalistas, que chamam atenção, mas pouco esclarecem. No âmbito de Santa Catarina, um exemplo recente que evidencia bem essa dinâmica foi a cobertura da morte de um casal em um motel em São José, na Grande Florianópolis, há duas semanas, quando veículos de imprensa divulgaram que eles teriam consumido drogas antes de serem encontrados mortos na banheira, inclusive acompanhando a notícia com fotos das vítimas.
Qual princípio ético sustenta a decisão de expor detalhes íntimos? Essas informações servem ao interesse público ou pertencem à esfera privada? Quem se responsabiliza por potenciais danos morais ou psicológicos à família diante da veiculação de tais informações?
Um jornalismo comprometido deveria, antes de tudo, ponderar o impacto sobre a dignidade dos envolvidos. Quando a ênfase recai no choque ocasionado, corre-se o risco de violar princípios fundamentais de responsabilidade informativa, privilegiando o impacto imediato em vez de garantir o direito à compreensão sobre a realidade social.
Transformações contínuas em torno do conceito de notícia
Desde a circulação das primeiras gazetas, o conceito de notícia está em permanente transformação. Isso porque a escolha do que se torna notícia depende de critérios editoriais, culturais e organizacionais (Silva et al 2021) que refletem o modo de pensar de uma determinada época. Ao compararmos os jornais do início do século XX com os veículos contemporâneos, percebemos diferenças significativas tanto na forma quanto no conteúdo da informação jornalística.
Essa transformação é natural, pois a notícia se adapta às mudanças tecnológicas, sociais e culturais. No entanto, é preciso observar que os tempos atuais apresentam mudanças inéditas, especialmente em função da velocidade da circulação digital, da mediação algorítmica e das novas expectativas do público, que exigem repensar critérios.
As mudanças de consumo são um primeiro aspecto a considerar, impulsionadas principalmente por tecnologia digital, redes sociais e mudanças nos hábitos do público (Fischer, 2023). A audiência, especialmente o público jovem, busca informações de forma imediata, muitas vezes por meio de notificações, redes sociais ou aplicativos. Esse comportamento pressiona os veículos de comunicação a adaptarem suas rotinas e formatos. Assim, os critérios que definem o que é notícia passam a ser filtrados também pela lógica da brevidade e da atratividade imediata.
No campo da produção, também há transformações significativas. O ciclo de notícias não é mais diário, mas contínuo, com atualização em tempo real, o que pressiona jornalistas a trabalhar sob intensa pressão temporal. Conteúdos não se limitam a textos: vídeos, podcasts, infográficos, stories e transmissões ao vivo são incorporados à produção. É preciso dominar diferentes linguagens e técnicas para atingir públicos distintos.
A produção é influenciada por dados sobre audiência: cliques, compartilhamentos e tempo de leitura passam a orientar decisões editoriais. A notícia deixa de ser apenas resultado de escolhas jornalísticas e passa a ser moldada pela lógica do mercado de atenção, em que visibilidade pode se sobrepor à relevância pública.
No campo da circulação de informação, as mudanças também são profundas, principalmente com a digitalização, redes sociais e novas formas de compartilhamento. As notícias circulam quase em tempo real, alcançando milhões de pessoas em minutos. O ciclo contínuo de atualização reduz o tempo para reflexão e contextualização. A notícia deixa de ser produto fechado e acabado para tornar-se processo dinâmico e interativo.
Comentários, compartilhamentos e produções cidadãs participam ativamente da forma como os fatos são narrados e compreendidos. Nesse sentido, o público não é mais mero receptor para tornar-se também mediador, editor e, em alguns casos, produtor do que se entende como notícia. Esse fenômeno democratiza a circulação de informações, mas também fragiliza fronteiras entre jornalismo profissional e desinformação, exigindo novas estratégias de checagem e validação.
Pressões adicionais sobre os critérios de noticiabilidade
Nesse cenário, os critérios de noticiabilidade sofrem pressões adicionais que extrapolam aquelas identificadas como as rotinas produtivas e as convenções culturais do jornalismo. A busca incessante por engajamento em plataformas digitais e a velocidade do consumo informativo impõem novos filtros ao que se torna notícia. A concorrência por atenção, traduzida em cliques, curtidas e compartilhamentos, tende a privilegiar conteúdos de apelo emocional imediato, reforçando o sensacionalismo e a fragmentação.
Assim, os valores-notícia tradicionais, como conflito, tragédia e proximidade (Silva et al, 2021), são potencializados pela dinâmica das redes sociais, onde a visibilidade pode se sobrepor ao critério de relevância pública. Nesse cenário, pensar noticiabilidade implica reconhecer que a seleção dos fatos não depende apenas de decisões editoriais, mas também da interação entre práticas jornalísticas, pressões mercadológicas e mediações tecnológicas que reconfiguram o que a sociedade entende por notícia.
Repensar a notícia na era da instantaneidade implica reconhecer que o jornalismo contemporâneo deve se reinventar diante das novas formas de consumo, produção e circulação da informação. O desafio não reside apenas em sintetizar informações para atrair um público cada vez mais apressado, mas também em preservar a profundidade, a ética e a credibilidade que sustentam sua função social.
A notícia, nesse contexto, deve ser entendida como um processo híbrido: simultaneamente breve e aprofundado, acessível e crítico, factual e interpretativo. Somente assim o jornalismo poderá reafirmar seu papel democrático em um ambiente informativo caracterizado pela velocidade, fragmentação e predominância de disputas narrativas.
Referências
FISHER, Max. A máquina do caos: Como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. São Paulo: Todavia, 2023.
SCHUDSON, Michael. Descobrindo a notícia: uma história social dos jornais nos Estados Unidos. Petrópolis: Vozes, 2010.
SILVA, Gislene; SILVA, Marcos Paulo da; FERNANDES, Mario Luiz. Critérios de noticiabilidade: problemas conceituais e aplicações. Florianópolis, SC: Editora Insular, 2021.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Magali Moser é Doutora em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC, pesquisadora associada do objETHOS e jornalista da Udesc
