
(Foto: Nothing Ahead/Pexels)
Mesmo com mais de 40 anos de jornalismo, continuo aprendendo ou desaprendendo a todo momento no ofício de informar, analisar e opinar em veículos de imprensa. Um dos assuntos que mais têm me intrigado há tempos são algumas atitudes e práticas no telejornalismo que contrariam muitas vezes o bom senso e a difusão fluida da informação televisionada.
Nesses últimos anos, tenho ficado entusiasmado com o surgimento de alguns canais de notícias nas TVs por assinatura. Um vento contrário ao que tem ocorrido na imprensa brasileira, onde o fechamento de veículos é uma tempestade constante e melancólica. Em geral, as novas emissoras são franquias internacionais ligadas ao hard news, mas há problemas a serem refletidos sobre elas.
Na teledifusão uma das primeiras regras é ser fundamentalmente imagética, porém o que se vê não é bem isso nos canais de notícias. Possivelmente para se ajustar aos orçamentos, há uma predominância de talk shows e programas de entrevistas (interview shows). Em alguns períodos, os novos canais se fecharam demais para dentro das paredes do estúdio.
Como acontece hoje em diversas emissoras, a televisão não deveria ser uma espécie de ‘estação de rádio’ televisionada com talking heads (cabeças falantes) na maior parte de sua programação. Essa linha editorial conflita muito com a linguagem televisiva.
Arquétipos
No filme O Quarto Poder o personagem interpretado por Dustin Hoffman, um produtor de televisão (pouco ético, por sinal), condena veementemente o direcionamento que está tomando seu telejornal, não usando imagens na medida certa. Ele se referia ao recurso conhecido como ‘foto fixa’ ou ‘placa de identificação’ que não é mais usado com o avanço da tecnologia. Neste caso, por falta de imagens, o repórter só transmitia o áudio, sendo a matéria no vídeo coberta apenas pela sua foto pessoal, o logo e o GC com o nome.
Ele argumentava: “Se você só tem a foto do repórter e apenas sua voz, você tem rádio”; “para ter televisão, você precisa da imagem da ‘tragédia’ acontecendo”. E complementou: “Se não temos imagens, não temos matéria”.
Nossas jovens emissoras, especializadas em notícias, por princípio, deveriam também pensar mais profundamente em outros gêneros jornalísticos. A reportagem precisa ser prestigiada e fortalecida para oferecer um jornalismo melhor. Não há outro caminho a ser perseguido para evoluir um canal de notícias.
Programas de opinião
Causa impacto também o grande número de programas opinativos, especialmente na programação vespertina dos news television channels. Tendo como característica as telas múltiplas ou vários comentaristas simultâneos no estúdio, eles têm gerado muitas polêmicas.
Para evitar problemas com a ‘plateia’ de todas as vertentes políticas, talvez fosse pertinente colocar uma salvaguarda no vídeo com o aviso: “As opiniões dos participantes do programa não refletem, necessariamente, a opinião do veículo” (e pode não ser a absoluta expressão da verdade). Haveria então menos mal-entendidos ou controvérsias com o público mais à direita, que frequentemente critica os jornalistas por seus pontos de vista. Para este público conservador bastaria aos jornalistas somente informar.
Juízos de valor
Opinar é saudável e relevante, mas tem seus limites. Há milênios o imperador romano Marco Aurélio alertava para termos cautela com a opinião, ou seja, juízos de valor, perspectivas pessoais, pontos de vista, julgamentos, posicionamentos, convicções, crenças e olhares particulares. Ele declarou: “Tudo que ouvimos é uma opinião, não um fato. Tudo que vemos é uma perspectiva, não a verdade”.
Nunca chegou a ser um imperador como Marco Aurélio, mas o polêmico senador e ex-vice-presidente, Hamilton Mourão, reforçou num evento, alertando a plateia e jornalistas para o cuidado com o ponto de vista: “A opinião está entre a dúvida e certeza”, definiu.
Pesquisadores acadêmicos de televisão têm feito com regularidade estudos sobre o conteúdo da mídia televisiva. O autor Arlindo Machado, em seu livro A televisão levada a sério, analisou esse meio de comunicação e defendeu a qualidade como a questão principal a ser avaliada. Na ótica do pesquisador, a melhor forma de avaliar a TV era analisar os trabalhos de qualidade pensados exclusivamente para a exibição em televisão.
Por seu turno, o sociólogo francês Pierre Bourdieu em sua obra “Sobre a Televisão” (Sur la télévision) também alertava para os riscos da homogeneização dos conteúdos televisivos para a vida política e principalmente para a democracia.
Linguagem visual
Chama atenção também no telejornalismo econômico das emissoras hard news que um dos seus destacados noticiários asfixie suas telas com números de toda sorte, inúmeros gráficos lineares, GC rotativos ou outros grafismos espetaculosos. Tudo isso no mesmo restrito monitor, que chega a parecer um luminoso de rua antigo.
O trabalho acadêmico Influência do layout gráfico dos telejornais sobre os telespectadores: um estudo de rastreamento ocular (de Rui Rodrigues, Ana Veloso e Óscar Mealha), publicado em 2016, na revista do Observatório (Portugal), mostra que números e grafismos fortes atraem rapidamente o olhar, mas excesso de informação reduz retenção e compreensão. Em outras palavras: excesso de elementos simultâneos (“tela poluída”) prejudica compreensão.
O treinamento da NBCU Academy adiciona que os números não são muito amigáveis à linguagem da TV. Além do mais, um executivo ou analista do mercado financeiro, que seja heavy user desses dados econômicos, já deve ter tido acesso antecipadamente aos mesmos em tempo real por outras fontes diretas: sites de corretoras e agências internacionais. Para um telespectador mais comum, esse detalhamento não interessa.
Mau entendimento
Na lista dos incômodos, uma prática histórica se calcificou e pode induzir a erro inúmeros receptores, especialmente os mais simplórios. Em quase todas as edições dos telejornais de ‘cabeça de rede’ sempre há um correspondente internacional reportando de algum lugar da Europa um conteúdo de um local longínquo da sua base como por exemplo: Israel, China, Japão ou da África.
A objeção é que este jornalista, como está a milhares de quilômetros do fato, faz a narrativa como se estivesse no próprio local do acontecimento – inclusive com stand-up/passagem – mas da Europa. O fato de o jornalista estar em solo europeu ou nos Estados Unidos não lhe dá o dom da onipresença e também de estar na África, em Israel ou na China.
Seria mais indicado o correspondente fazer simplesmente a matéria como uma nota coberta, apenas com inserts com seu singelo off, sem a imagem de sua passagem e seu microfone vaidoso empunhado.
Sobre as possibilidades da manipulação na televisão, o autor Niceto Blázquez em seu livro Ética e Meios de Comunicação alertava: “A tecnologia e as múltiplas intervenções sobre o tema original podem resultar em imagens fascinantes pela sua semelhança com a realidade de origem e decepcionantes ao mesmo tempo pela eventual falsificação dela.” Seria então um exagero achar impróprio os correspondentes fora do contexto factual narrarem como se estivessem in loco?
Para sermos mais exatos, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros dispõe em seu Art. 4º: O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.
Fontes
Um outro ponto crítico que merece ser lembrado é a questão das fontes nos canais de notícias. Numa reportagem, 50% ou mais da sua qualidade está diretamente relacionada à escolha daqueles que vão municiar os repórteres com informações valiosas para finalizar a matéria.
Especialmente nas guerras da Ucrânia e do Irã temos assistido a explicações frequentes das mesmas fontes de sempre. Não há muito rodízio e todos nós acabamos comendo sempre na mão daqueles mesmos especialistas. Em geral, são professores universitários e tudo aponta que são profissionais bem preparados.
O que se lastima é a falta de diplomatas de carreira e adidos militares brasileiros como fontes primárias. Há um bom número deles que até serviram profissionalmente nessas nações beligerantes. O general Santos Cruz, por exemplo, foi adido militar em Moscou por dois anos, e ao que consta, nunca foi ouvido como fonte primária sobre os detalhes dos novos exércitos da Rússia e da Ucrânia.
Quem acompanha a CNN Portugal invariavelmente vai assistir ao general lusitano aposentado, Agostinho Costa, explicando os pormenores dos combates e do teatro de operações na Ucrânia. Bem próximo dele, às vezes, há um comentarista de assuntos internacionais que esquenta o vídeo com suas críticas, dúvidas e rebatidas pontuais às afirmações do militar. Essa dialética, resultado de um ardente fogo cruzado entre os protagonistas, é primorosa para o telespectador.
Na TV americana há alguns ex-militares conhecidos que atuam como comentaristas de forma recorrente, entre eles estão:
- Jack Keane — general quatro-estrelas aposentado, presença frequente na Fox News;
- Barry McCaffrey — ex-general e veterano da Guerra do Golfo, aparece regularmente na MSNBC e na NBC News;
- Rick Francona — tenente-coronel aposentado da inteligência da Força Aérea com vivência no Oriente Médio. Trabalhou na CNN, NBC e MSNBC;
- Robert Harward — vice-almirante, ex-Seal e ex-vice-comandante do Centcom — atua como analista militar na Fox.
Por que, então, a preferência dos produtores, editores e pauteiros verde-amarelos pelos docentes e não por militares, que são extremamente treinados para a defesa e geopolítica? Com certeza em nossa terra de paz há bons especialistas militares em questões de defesa e estratégia sobre a Rússia, Ucrânia, Irã e naturalmente Estados Unidos.
Relações internacionais
Em relação a outras fontes muito bem informadas, por que também não ouvir ex-diplomatas brasileiros que ocuparam consulados e embaixadas nesses países em conflito e tanto sabem sobre o respectivo modus vivendi, sua cultura, história e tradições? Tais servidores de Estado conhecem como poucos as vísceras das relações internacionais, seus mistérios e complexidades.
Sendo sólidos intelectuais, alcançam ângulos, profundidades e perspectivas que um teórico distante a milhares de quilômetros do fato não teria como interpretar, desvendar e enxergar detalhes diplomáticos com a mesma destreza e autoridade. Para se fazer uma análise mais densa, somente a leitura da mídia estrangeira não basta. Estar ligado organicamente ao ambiente, à geografia e aos protagonistas faria uma diferença extraordinária para o jornalismo de assuntos internacionais.
No caso americano, alguns diplomatas de carreira ficaram muito conhecidos como comentaristas de assuntos internacionais na TV, entre eles figuram:
- Richard Haass — desempenhou as funções de diretor de planejamento do Departamento de Estado e enviado especial. Aparece regularmente na CNN, MSNBC e PBS e comenta sobre geopolítica, China, Rússia e Oriente Médio;
- Nicholas Burns — ex-embaixador na China e ex-porta-voz do Departamento de Estado. Faz análises na CNN, MSNBC e PBS sobre diplomacia e segurança internacional;
- Samantha Power — foi embaixadora na ONU e administradora da USAID. Ela faz aparições frequentes na CNN, MSNBC e em outros programas de política externa. Fala de direitos humanos, guerra e diplomacia.
As polêmicas expostas neste brejeiro artigo não têm objetivo de azucrinar o duro trabalho dos ‘telecoleguinhas’. O propósito é apenas gerar debate e visibilidade a temas pouco tratados no meio do telejornalismo. Como algum frasista deduziu: “É da divergência que nasce a convergência”.
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Paulo Sérgio Pires é jornalista, publicitário e professor de Comunicação. Foi produtor, editor de texto e redator da produtora de TV, Terra Viva, e diretor dos programas experimentais da TV São Judas no Canal Universitário (CNU). Lecionou Telejornalismo na USJT. É pós-graduado e mestre em Comunicação pela USP. Possui certificações em Telejornalismo pela NBCU Academy e em Produção e Direção de Televisão pela Escola de Televisão e Arte Eletrônica – ETAE.
