Sábado, 31 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

As cascas de bananas no caminho do repórter na cobertura das eleições de 2026

(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Vai ser complicado e perigoso para a imprensa fazer a cobertura da disputa eleitoral em 2026, ou como se dizia nos tempos das máquinas de escrever nas redações: “a barra vai ser pesada”. O cartão de apresentação do que vem por aí foi a paralisação por 30 horas dos trabalhos das mesas da Câmara dos Deputados e do Senado, na semana passada, por parlamentares bolsonaristas e seus aliados. Hugo Motta (Republicanos-PB), 35 anos, presidente da Câmara, denunciou 14 deputados para a corregedoria. Até quarta-feira, o corregedor Daniel Coronel (PSD-BA), 42 anos, deverá dar o seu parecer sobre o destino dos mandatos dos denunciados, que pode ser a suspensão por meio ano. O que difere esta ocupação das mesas das duas casas legislativas de outras que já aconteceram? A violência e o enfrentamento que os parlamentares tiveram em relação a Motta e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), 48 anos. Dois parlamentares gaúchos tiveram destaque na lambança: Marcel van Hattem (Novo), 39 anos, que se sentou na cadeira do presidente da Câmara evitando que Motta assumisse o seu posto; e Luciano Zucco (PL), 51 anos, mais conhecido como tenente-coronel Zucco, líder da oposição e um dos articuladores da confusão toda.

Há dois motivos para a violência dos parlamentares bolsonaristas e seus aliados. O primeiro é que o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que está cumprindo prisão domiciliar, no próximo mês deverá ver concluído o julgamento da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) em que ele e 33 ex-ministros, generais e funcionários de alto escalão do seu governo são acusados de formarem um organização criminosa para tentar um golpe de estado. Tudo indica que serão condenados, o que significa que o ex-presidente não estará nos palanques dos candidatos bolsonaristas em 2026. O que aumenta o risco de não serem eleitos. Um deles é o tenente-coronel Zucco, que graças ao prestígio político de Bolsonaro em 2018 se elegeu como o deputado estadual mais votado no Rio Grande do Sul. E repetiu o desempenho em 2022, desta vez para deputado federal. Este é um dos motivos que levou os bolsonaristas a apostarem tudo para conseguir, no Congresso, a aprovação de um projeto que concede anistia ampla, geral e irrestrita para os envolvidos na tentativa de golpe – matérias na internet. Mas há um problema: 61% dos brasileiros, segundo pesquisa de opinião, são contra a anistia. Em consequência, não há consenso entre os parlamentares da urgência do projeto. Além disso, é bom lembrar que nos primeiros meses do ano o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), 41 anos, um dos filhos do ex-presidente, pediu licença do seu mandato e mudou-se para os Estados Unidos, onde, auxiliado por seguidores do seu pai e amigos, montou um eficiente lobby junto ao governo americano que conseguiu convencer o presidente Donald Trump (republicano), 79 anos, a exigir a anistia a Bolsonaro como condição para negociar a redução de uma tarifa de 50% que impôs aos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.

Como a imprensa americana explicou, a exigência da anistia para negociar o tarifaço foi um “tiro que saiu pela culatra”. A condição imposta por Trump acabou sendo vista pelos brasileiros e por muitas autoridades ao redor do mundo como uma intervenção americana na soberania nacional, o que acabou agregando muita gente ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos. Resumindo o problema dos candidatos bolsonaristas na disputa política de 2026: estarão no palanque sem a presença física do seu líder maior e terão que responder à acusação de “traidores da pátria” que lhes está sendo feita devido o tarifaço de Trump. A opção que restou aos bolsonaristas é aumentar a radicalização para continuarem atraindo os seus seguidores nas redes sociais. Aqui entram as redações dos jornais e outras plataformas de imprensa. O aumento da radicalização significa que um candidato fará de tudo para ser notado. Portanto, será necessário um repórter preparado para lidar com este tipo de pessoas e situação. Sabemos que as redações, nos dias atuais, são formadas em sua grande maioria por jovens sem experiência para atuar em um campo minado como será a disputa política em 2026. Vou citar duas pessoas: o deputado Zucco e o pastor Silas Malafaia, 66 anos, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, um dos principais apoiadores de Bolsonaro. Eles respondem às perguntas gritando e atirando argumentos na conversa com o jornalista como se fossem “metralhadoras giratórias”. A maioria dos argumentos que usam mistura fatos com mentiras. Para este tipo de entrevista é necessário um repórter calejado, que consiga interromper o entrevistado quando ele tentar desviar a sua atenção para outro assunto. O segredo é interromper a saraivada de gritos. Ou seja, não permitir que transformem a entrevista em um palanque eleitoral. Quando eu estava na redação não trabalhava com a cobertura política. Minha especialidade eram os conflitos agrários, as migrações internas e o crime organizado nas fronteiras. Mas acabava me envolvendo nas coberturas das eleições. Aliás, toda a redação se envolvia. Lembro o seguinte. Em um passado muito recente, o repórter entrevistava o candidato, publicava a sua matéria e o entrevistado não tinha como reclamar. Atualmente, antes mesmo da reportagem ser publicada, ele já está nas redes sociais tentando desacreditar o jornalista.

Como se dizia nas antigas redações: “Não adianta ficar chorando em cima do leite derramado”. Comecei a trabalhar em 1979, época em que as coisas andavam muito devagar. Era necessário tomar muitas cervejas nos botecos com os jornalistas mais experientes para aprender as manhas da profissão. Hoje podemos aprender muita coisa apertando um botão no celular e assistir a um vídeo sobre a pessoa que será entrevistada. O que dará uma chance ao repórter de saber com quem ele está lidando. Mesmo que haja uma mudança no atual quadro político, a cobertura da campanha eleitoral de 2026 será muito complexa e exigirá do jornalista muita habilidade para não cair nas provocações. Definitivamente, vivemos tempos complicados. Mas faz parte da nossa lida. Só temos que tomar muito cuidado com as cascas de banana espalhadas pelo caminho.

***

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.