Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Quando a TV faz o que sabe fazer

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Não foi apenas mais uma cobertura direto de Brasília. Ao se debruçar sobre as duas semanas de julgamento dos acusados pela tentativa de golpe de Estado em de 8 de janeiro de 2023, o telejornalismo brasileiro lembrou que a TV continua sendo palco privilegiado para o debate público e espaço de referência quando a complexidade exige explicação.

Sessões longas, votos técnicos, linguagem jurídica e clima político carregado. Como traduzir um julgamento histórico para milhões de brasileiros que chegam em casa depois de um dia de trabalho? A resposta veio pelo caminho que a TV já conhece bem: organizar a narrativa, dar contexto, mostrar o que está em jogo.

Não bastava reproduzir falas ou votos. Era preciso retomar fatos, explicar os códigos do direito, o significado de cada decisão, cada divergência, cada condenação. Ao transformar os julgamentos em um fio condutor compreensível, a TV cumpriu não apenas o papel de informar, mas também de tornar compreensível o peso histórico do processo.

Notadamente, a TV Globo escalou muitas equipes para esta cobertura, dedicando amplo espaço em todos os telejornais. Em cada edição do Jornal Nacional, por exemplo, havia a tentativa de conectar os pontos e apresentar um panorama mais amplo. Não se tratava de empilhar informações, mostrando o que aconteceu, mas de transformar o noticiário em compreensão. Essa escolha editorial reforçou o papel do telejornalismo como espaço de referência em assuntos de relevância pública.

O fato é que não havia nada de revolucionário na cobertura. O mérito estava em retomar estratégias tradicionais e aplicá-las com rigor em um contexto que exigia certa profundidade, mesmo considerado o fator factualidade. O telejornalismo brasileiro sabe como aprofundar uma pauta, com investigações, entrevistas com especialistas, gráficos e recursos visuais para tornar o complexo compreensível. Em vez de encurtar e simplificar, os telejornais decidiram expandir. Assim, as reportagens especiais ofereceram respiros analíticos diante da complexidade do tema.

Oportunidade de reencontro com o público

A forma de conduzir a cobertura, mais cuidadosa e analítica, contrasta com momentos emblemáticos anteriores na história recente, em que o excesso de intimidade entre jornalistas e fontes oficiais expôs muitos dilemas éticos, abrindo margem para distorções e desequilíbrios na mediação com o público, sem o necessário distanciamento crítico. É sempre importante lembrar que credibilidade não se constrói apenas pelo acesso privilegiado aos bastidores, mas pela responsabilidade de decifrar a complexidade dos acontecimentos, mantendo a independência como princípio.

Outro aspecto que merece atenção é o contraponto com as redes sociais. Com cortes rápidos, frases isoladas, memes e disputas narrativas, não faltaram informações nesses espaços, mas sobrou fragmentação. E quando cada um acessa uma parte, um trecho ou uma versão, há sempre um risco de se perder a compreensão do todo, dando espaço para a desinformação. Justamente nesse contraste a televisão se destaca. Ao costurar os fatos, o telejornalismo mostrou que ainda pode oferecer algo que os algoritmos não entregam, trazendo continuidade, contexto, narrativa verificada e confiança profissional. A televisão se reafirma como espaço de síntese. Não que ela detenha a verdade, ressalte-se, mas ainda tem a força notável de organizar os fatos e devolvê-los à sociedade em forma de compreensão.

Laço temporal

O público respondeu à cobertura e a imprensa especializada repercutiu a audiência expressiva. No dia 03 de setembro, após o primeiro dia do julgamento, o portal da revista Veja publicou: “Julgamento de Bolsonaro impulsiona Globo e dá ajudinha a ‘Vale Tudo’”. Na semana seguinte, a página Notícias da TV também destacou: “Quase 2 milhões viram na TV aberta o plantão da Globo sobre Bolsonaro em SP”. Mas esses indicadores de audiência também reforçaram a importância da temporalidade do fluxo televisivo. No dia 11 de setembro o Jornal Nacional foi exibido mais cedo por conta da transmissão do jogo das quartas de final da Copa do Brasil. Foi um dia decisivo do julgamento, em que os ministros do STF formaram a maioria dos votos pela condenação do ex-presidente Bolsonaro e dos demais acusados. Mas a tendência da audiência não se repetiu com o desfecho do processo. “Mais cedo e com condenação de Bolsonaro, Jornal Nacional perde mais de meio milhão de telespectadores”, registrou o portal TV Pop.

Esse dado mostra como a televisão não é apenas conteúdo, mas também rotina. O público cria laços com os horários e esse vínculo estabelece uma espécie de compromisso tácito entre a emissora e o telespectador. Esse caráter ritualístico, de começar e terminar em horários previstos, é parte da força simbólica da televisão e explica por que mudanças de horário podem ter impacto tão expressivo, mesmo em dias de forte interesse público.

Lugar do telejornalismo

A cobertura sobre o julgamento da tentativa de golpe de Estado demonstra como o telejornalismo ainda consegue retomar a centralidade no debate público. Não precisa competir com a velocidade das redes, com os cortes de 30 segundos ou com os posts virais. Sua força está justamente naquilo que exige tempo, oferecendo contexto, explicando, interpretando.

Esse papel pedagógico pode e deveria ser exercido com mais frequência, seja na cobertura nacional ou, principalmente, na local, com temas mais próximos e até menos complexos. Afinal, por que as notícias importam e como podem impactar a vida das pessoas? Em vez de correr atrás da notícia que circula nas redes, investir em narrativas que aproximem a política, a economia e os serviços do dia a dia da população podem ser oportunidades de se reposicionar. Ao assumir esse papel, a TV pode se tornar ainda mais relevante para a população, afinal é para ela que muita gente ainda volta os olhos em busca de compreensão.

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Vitor Belém é jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor da Universidade Federal de Sergipe. Foi repórter e produtor de TV e atua como pesquisador na área do jornalismo audiovisual.