
(Foto: StockSnap por Pixabay)
Recentemente, em coautoria com Juliana Bulhões, publicamos uma história regional do jornalismo, “História do jornalismo no Rio Grande do Norte (1832-1889)” (editora Biblioteca Ocidente, 2025, 56p.).
O livro é um dos resultados de uma pesquisa que viemos desenvolvendo sobre a história do jornalismo que não só redundou na publicação de alguns artigos, como também, recentemente, na publicação desse livro-ensaio.
Além da leitura de trabalhos fundamentais sobre a história da imprensa e dos jornais, como, entre outros, “História cultural da imprensa: Brasil, 1800–1900” (2010) de Marialva Barbosa; e, “História dos jornais no Brasil” (2015) de Matías Molina; fomos à fonte primordial: os jornais.
Foram meses e meses da leitura de jornais semanais diversos do século XIX que encontramos no fabuloso arquivo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, quando passamos a viver em outro tempo. Foi como se mudar para outro século e acompanhar o que era notícia e como se fazia jornalismo.
Foi entre anúncios de fuga, compra e venda de escravizados, purgantes e elixires, mas também de um abundante debate político, sobretudo nos temas sensíveis, a abolição e a república, folhetins, artigos de opinião e até crônica e reportagem que nos deparamos com certos pilares do jornalismo como o que sempre foi feito da matéria do dia, ou seja, do contemporâneo.
Assim, pudemos logo de pronto notar que o jornalismo no Brasil já nasceu em sua essência noticioso e diverso, característica que permanece. Mesmo que o seu meio não seja mais o impresso, que era o único e preponderante, e, hoje, seja multiplataforma, podemos constatar que este pilar desde seu surgimento no Brasil permanece.
É importante lembrar que a imprensa no Brasil era novidade. As máquinas, os veículos e os seus operadores começaram a surgir por aqui após a vinda da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e a partir daí jornais foram se espalhando rapidamente pelas províncias, que hoje correspondem aos estados.
É certo que havia uma abundância de veículos no centro do poder, o Rio de Janeiro. Mas as províncias não deixaram de ter os seus. Jornais foram surgindo pelo Brasil afora e a notícia foi circulando pelos vapores. Os navios que circulavam pela costa traziam e levavam jornais e, assim, a informação circulava. O jornalismo já se fazia em rede.
Dois fatores foram essenciais para que se fizessem jornais e o jornalismo: um deles, primordial até hoje, foi a liberdade de imprensa e a livre iniciativa para se fundarem jornais. Inclusive, duas medidas asseguradas por lei que mesmo que pressionadas pela censura conseguiram se fazer valer. Outro fator foi o acesso à tecnologia do momento e a profissionais habilitados para operá-la: a tipografia e o tipógrafo.
Quando hoje nos deparamos com todos os dilemas que assaltam o jornalismo atualmente, e vejamos, a liberdade de imprensa, a presença da IA, a formação profissional, os temas contemporâneos, como as questões climáticas, entre outros. Numa Era, como escreveu aqui no Observatório da Imprensa João Pedro Malar, Do pós-Facebook ao pós-Google, nos perguntamos, ao olhar o passado, o que o jornalismo de ontem poderia nos dizer.
Um jornalismo que pelas suas práticas pode ajudar a pensar sobre o jornalismo de hoje. A primeira delas seria a não concentração regional, a presença e existência de veículos e jornalistas em todas as regiões do Brasil, a mídia regional e local, a ampliação dos seus temas e a presença das questões contemporâneas e do debate e a voz ao leitor.
Ao que parece, o jornalismo de ontem não se furtou a contrariar a necessidade da mudança ao mesmo tempo que inegavelmente foi um espelho do seu tempo. Se o jornal foi aquele que naturalmente publicava anúncio de escravizados, seja de fuga ou compra e venda, pouco a pouco foi aquele que veio a condenar a escravidão como algo nefasto e celebrou a abolição.
Se foi também um jornalismo que surgiu com homens escrevendo jornais para o público feminino, foi também aquele que deu voz a pensadores que estavam adiante, reclamando educação para as mulheres, reclamando igualdade de direitos, contra a escravidão e contra a subjugação do indígena, como foi a educadora e também jornalista Nísia Floresta, que já escrevia artigos para os jornais na década de 1830 sobre estes temas.
Se hoje reivindicamos a presença de um jornalismo plural com diversidade de representação, devemos olhar para Nísia Floresta. Assim, quando se fala em reinvenção do jornalismo, podemos ampliar o olhar para os primórdios também, e entender que o jornalismo também nunca foi feito sem tecnologia de ponta.
Enquanto os jornais manuscritos tinham uma circularidade bem menor, a tipografia trouxe a capacidade maior de alcance, então devemos entender que a crise gerada pela tecnologia pode ser considerada uma oportunidade para o jornalismo. Aquela de, ao aprender a dominar a técnica, ampliar o seu alcance, pois a sua natureza não se separa da tecnologia do momento. E isso, encontramos na história, não é de hoje.
É claro que nem todas as respostas estão no passado e tampouco o passado é perfeito. Mas conhecer o passado pode ajudar a entender melhor o presente e as engrenagens de como surgiu e foi feito o jornalismo no Brasil, desde este primeiro, lá no século XIX, do qual aqui estamos falando, até o que vivemos hoje.
A história do jornalismo no Brasil é preciso lembrar que é coisa recente. Passamos há pouco dos duzentos anos. Mas quantas Eras já não vivemos? Quantos solavancos? Sempre imperfeito, pois da matéria humana é o jornalismo, mas essencial, pois o jornalismo não só se fez na democracia, como também sobreviveu aos momentos em que ela, infelizmente, foi sequestrada. A Era digital é mais um capítulo desta história.
É quando surgem as encruzilhadas que mais devemos olhar para trás. Conhecer a si mesmo pode não ser uma solução, mas pode ajudar a melhor ver os dilemas do presente e a entender que, postos os desafios, o jornalismo sempre foi aquele que foi capaz de enfrentar as suas próprias limitações e desafios.
A quem interessar, o livro mencionado está disponível gratuitamente para download neste link.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Autor de diversos artigos e livros, reunidos no seu site pessoal gustavosobral.com.br.
