Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Um olhar sobre o futuro da profissão a partir de uma entrevista com o dIAbo

(Foto: Crab Lens: Pexels)

Um preto, um pobre, uma estudante, uma mulher sozinha” Belchior (Alucinação)

Quando McLuhan escreveu Os meios de comunicação como extensões do homem (2000), fez mais do que revelar um quadro estático. Seus exemplos podem ser datados, mas a dinâmica das sociedades industriais, por ele descrita, continua atuante. Nelas, pressionado pelo acelerado surgimento de novas extensões tecnológicas, cada indivíduo enfrenta constante necessidade de se reinventar. Em todas as dimensões da vida, soluções úteis a uma geração comumente não são adequadas para a seguinte. Algo evidente no mundo do trabalho.

Ano após ano, pari passu com os avanços tecnológicos, profissões foram varridas por inúmeros desafios. O último desses ventos é a expansão das ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Tal tormenta – há muito anunciada nas linhas de montagem, com robôs substituindo pessoas – hoje arremessa papéis aos ares, com a difusão dos modelos baseados em deep learning, como o ChatGPT, o DeepSeek e até o Llama, do Meta, disponibilizado gratuitamente no WhatsApp.

Foi exatamente com o Llama que “conversamos”, em busca de saídas para o jornalismo diante desse contexto. Ou seja, frente a novo inferno, pedimos a um dos dIAbos um mapa para sair dos quintos. Ao menos, um guia de sobrevivência no tártaro. Estratégia arriscada, mas nascida de antiga sabedoria: “tá no inferno, abraça o capeta”.

Da alienação da produção…

Quais características estruturais do jornalismo facilitam a substituição de profissionais por máquinas? Questionado sobre isso, o Llama respondeu: “formatos repetitivos como a pirâmide invertida, lead e sublead podem facilitar a substituição de postos de trabalho no jornalismo por inteligência artificial (IA)”.

Para entender o surgimento de tais “formatos repetitivos”, vale frisar que a cadeia de produção das mercadorias que empresas jornalísticas vendem passou por mudanças semelhantes às que ocorreram em todas as áreas da indústria. Especialmente, em dois aspectos: fragmentação do trabalho e estandardização do produto.

A fragmentação da produção ocorre em dois níveis. O primeiro é a subdivisão da montagem da matéria/mercadoria em várias etapas/especialidades. Do pauteiro ao responsável pela revisão ou edição final, é possível listar o surgimento de diversos papéis. O segundo nível de fragmentação são as editorias. Mesmo num jornal ou veículo geralista, elas subsistem. Isso tem a ver com uma característica do produto industrial percebida por Jean Baudrillard, a personalização: “objeto algum é oferecido ao consumo em um único tipo” (Baudrillard, 2009, p. 149).

Basta imaginar as bancas de revistas, espalhando alegria e preguiça pelas esquinas do país. Num primeiro plano, jornais: Estadão num extremo, Meia Hora no outro. Na prateleira atrás do jornaleiro, cigarros: Carlton (Dunhill) num extremo, Derby (Kent) no outro.

… à alienação do emprego

Ao mesmo tempo, a estandardização se impõe. Aparentemente, em contradição com a personalização. No entanto, Baudrillard demonstra que essa contradição não existe, pois os produtos são pensados em séries que, acopladas a diferentes discursos, são subdivididas para os nichos.

Assim, com adaptações a veículo e público, o ideal da objetividade ganhou espaço sob diversas formas. À sombra da amarra estrutural da pirâmide invertida, fomos treinados em faculdades e redações a encaixar acontecimentos numa mesma fôrma discursiva.

Somada a isso, a impessoalidade. Ainda que (ao consumidor) a notícia possa parecer personalizada, devem-se evitar marcas de quem a produz. A voz da testemunha que narra é, o mais das vezes, mascarada, com exclusão da primeira pessoa (ou “higienização” da imagem e da voz). Como se acontecimentos fossem registrados por uma máquina. Uma câmera, um gravador, um robô.

Lembrando Karl Marx e pensando dois sentidos consagrados para o termo alienação – (a) perda da posse de um bem e (b) alheamento em relação a dado aspecto da realidade – é possível perceber um ciclo vinculado ao labor do jornalista. Em primeiro lugar, há a alienação (acumulação) primitiva, com os trabalhadores alijados da posse dos meios de produção. Em seguida, há a fragmentação da cadeia, que aliena o assalariado em relação à totalidade da produção. Por fim, há a substituição de postos por máquinas, alienando-se o último dos bastiões: o emprego. A alienação precede a alienação. Assim como a robotização precede os robôs.

Eu, robô?

Questionado sobre caminhos para que a profissão se mantenha relevante num mundo impactado pelas IAs, o Llama sugere que jornalistas se concentrem em “trabalhos que exigem habilidades humanas, como análise crítica, criatividade e julgamento”. Uma bela proposta. Contraditoriamente, muito do jornalismo que se viabilizou durante o último século se caracterizou por suprimir as duas primeiras sugestões e esconder a última.

Ou há como negar que, para manuais consagrados, a notícia é espaço onde os adjetivos devem ser evitados (análise crítica?), a forma é rígida e repetitiva (criatividade?) e a percepção da (primeira) pessoa que escreve deve ser formalmente escondida (julgamento?)? Se houve jornalismo opinativo e investigativo, eles raramente foram o carro-chefe.

O que houve foram milhões e milhões de “eus” se esforçando para parecer “isto”, máquina a registrar fatos e escrever textos como se tivesse diante de si um formulário. Milhões e milhões de “eus” convidados a agirem como robôs. Agora, potencialmente obsoletos.

Por um jornalismo alucinado

Certa vez mostrei ao professor Francisco Brinati, com quem dividia uma disciplina de jornalismo impresso na UFSJ, uma matéria que achei muito bem escrita. Ele respondeu: “tá ruim – falta gente.”

“Falta gente.” Belchior parece chegar a conclusão semelhante na letra de “Alucinação”. Nela, o compositor afirma não estar “interessado em nenhuma teoria”, renunciando tanto às utopias, que classifica como “sonhos matinais”, “romances astrais”, quanto às distopias, que são “profeta do terror que a laranja mecânica anuncia”.

O que interessa ao poeta? O “dia a dia”, a “experiência com coisas reais”. Belchior exalta a unicidade irrepetível da vivência presente como matéria-prima de sua criação. Algo resumido no verso que abre o inventário de cenas cotidianas que enumera a partir de então: “um preto, um pobre, uma estudante, uma mulher sozinha”.

A unicidade, aliás, resta frisada na opção pelo uso do “um”. Mais que artigo indefinido, mais que mero numeral, esse “um” reafirma que aquela pessoa é única, que aquela presença é única. Sua aura irreprisável – tomando emprestado um conceito de Walter Benjamin (2013) – intimamente ligada ao momento em que é encontrada: é isso que o poeta deseja captar. Talvez esse seja, também, um dos caminhos para a renovação do jornalismo.

Porque, de certa maneira, o Llama está dizendo: “faça o que nós, IAs, não podemos fazer”. E o que seria isso? Captar, subjetivamente, o subjetivo irrepetível da vida. Igualmente: captar, subjetivamente, o objetivo irrepetível da vida.

Um jornalismo ciborgue?

Persiste, porém, uma contradição: o sucesso do jornalismo sempre se baseou no interesse despertado e no caráter genérico das informações que divulga. O tamanho do público-alvo torna o negócio viável. Questionado sobre uma forma de vencer tal obstáculo, o Llama indica a cooperação como saída: “a ideia é que as IAs possam ajudar com tarefas mais rotineiras e demoradas, como a apuração documental, enquanto os jornalistas se concentram em tarefas mais criativas e que exigem habilidades humanas, como a escuta de pessoas e a construção da narrativa”.

Dessas palavras, é possível inferir a ascensão de um tipo de jornalismo que há muito se delineava: o jornalismo ciborgue. Ele já se espalha pelos noticiários, onde podemos ler matérias assumidamente produzidas por IAs (complementadas por suposta “revisão dos editores”). Uma relação pobre e desigual. Faz lembrar a exígua presença da boca do “cop” e a quase onipresença do “robô”, na imagem projetada pelo clássico filme protagonizado de ficção científica.

Isso poderia nos direcionar a uma reflexão distópica, não fosse a lembrança de Belchior, a destacar o risco de paralisia para quem se fia nas Laranjas Mecânicas. Todavia, não há utopia alguma em confiar a base documental das matérias que escrevemos a IAs que se alicerçam em bancos de dados aos quais não temos acesso.

De toda maneira, não é a primeira vez que o jornalismo precisa abrir caminhos em ruas supostamente sem saída. Se a modernidade é tempestade dantesca, a nos jogar pra lá e pra cá, o jornalismo é profissão quixotesca, destinado a gigantescas batalhas. Necessário se faz – diante de novo furacão – aprender, sem pagar o preço de Fausto, a arte de manipular o dIAbo. E que a alucinação do encontro com o outro seja a nossa maior lucidez.

Obras citadas

BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 2009.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM, 2013.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2000.

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Cristiano Otaviano é Jornalista, Doutor, Professor do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Letras: Teoria Literária e Crítica da Cultura (PROMEL) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).  Sob supervisão do professor Pedro Bustamante Teixeira, desenvolveu (2024-2025) estágio pós-doutoral na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde pesquisou as relações entre literatura e jornalismo.

Pedro Bustamante Teixeira é graduado em Língua Italiana e respectivas literaturas e em Língua Portuguesa e respectivas literaturas, Doutor, Professor de Língua e Literatura Italianas no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Faculdade de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras  Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).