
(Foto: Yelena from Pexels)
Meu olhar é guiado por uma constatação feita pela pesquisadora Lilia Schwarcz, investigando os jornais paulistas do final do século 19, recentemente citada pela jornalista e professora Fabiana Moraes, em seu livro “A pauta é uma arma de combate” (2022):
“Os jornais quase exclusivamente ocupam-se de interesses de sua parcialidade política e o que é mais de questões muitas vezes pessoais tem transviado a nossa imprensa do seu santo ministério… O Correio Paulistano (lançado em 1850) pois aspira nesta província o caráter de publicação imparcial” (grifos nossos).
Uma visada rápida nas manchetes de alguns dos principais portais de notícias do país revela um cardápio de pautas bastante heterogêneo, do ponto de vista jornalístico como representação do interesse público, ditado muitas vezes pelo compromisso editorial e o projeto político dos distintos veículos. Vejamos:
Portal Metrópoles (Distrito Federal)
Irmão do chefe do MP da Bahia tratou de pagamento com Daniel Vorcaro

O Estado de S. Paulo (São Paulo, SP)
Operação policial contra fraude e desvio de dinheiro público atinge produtora de filme de Bolsonaro

Portal Globo.com (Nacional)
45 universidades do Brasil caem em ranking das melhores do mundo

O Globo (Rio de Janeiro)
Crime contra mulher é o mais grave, mas país não vê violência em controlar saídas ou salário

Decisão dos EUA tem efeito incerto sobre Pix, e governo teme eventuais sanções a instituições financeiras

Portal UOL (Nacional)
Uso de holdings anônimas pelo Master mostra falhas em fiscalização (manchete)

Diário de Pernambuco (Recife, PE)
Tubarão cabeça-chata foi responsável por ataque a menino de 11 anos em Piedade, diz o Cemit

O Liberal (Belém, PA)
Petrobras informa desconto no preço do diesel de R$ 0,3515/litro

Começando pelo Norte e Nordeste, a manchete d’O Liberal remete a um tema nacional, ora desconectado das pautas nacionais dos diversos veículos e igualmente de eventuais destaques locais/regionais, uma vez que o jornal/portal na internet se apresenta como “porta-voz da Amazônia”. De modo bastante diverso, o Diário de Pernambuco reflete a principal notícia deste final de semana em Recife (com repercussão na Região Nordeste) ao elegar como título o ataque de um tubarão a um menino, na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife. Há dois públicos-alvo igualmente distintos nestas escolhas dos veículos do Pará e Pernambuco: um supostamente nacional e outro focado no local/regional.
O “Caso Daniel Vorcaro/Banco Master” segue no topo da hierarquia jornalística do Portal UOL – que tem feito extensa e profunda cobertura nas últimas semanas – e no Site Metrópoles, que se destaca nacionalmente a partir de Brasília (DF). Enquanto o UOL foca na trilha do dinheiro (“follow the money”, dica clássica da fonte anônima do Caso Watergate, nos anos 1970), o site candango se desloca para a Bahia à cata talvez de uma remota ligação do escândalo com o governo daquele estado, liderado pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Os diários paulistas, que estão entre os quality papers que ainda circulam em versão impressa (juntamente com o jornal O Globo/RJ) apostam em pautas com vieses assimétricos. Enquanto O Estadão mira em suíte do “Caso Dark Horse”, o filme sobre a vida do ex-presidente Bolsonaro, a Folha resgata a questão do Pix, ligada à decisão do governo Donald Trump de “classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas ainda tem efeitos incertos sobre o Pix”, destacando que o governo Lula estaria temendo “eventuais sanções a instituições financeiras”. Uma no cravo; outra na ferradura.
Por último, os veículos do Grupo Globo apostam em pautas que tratam de temas com notório interesse de públicos, sejam específicos (nichados) ou bastante amplos – como a aposta no debate sobre a qualidade da educação superior no país – que o Portal Globo.com faz ao destacar que “45 universidades do Brasil caem em ranking das melhores do mundo”. O jornal carioca O Globo traz para o topo de sua hierarquia a questão da violência de gênero, ao jogar luz sobre pesquisa do Instituto Datafolha cujo principal achado é que “ataques de gênero aparecem à frente de citações ao tráfico (16%) e assalto à mão armada na rua (10%)”. Em suma, “Seis em cada dez brasileiros (61%) entendem as agressões contra mulheres como o crime mais grave presente no país, superando problemas como o tráfico de drogas e os roubos”.
Esta breve mirada panorâmica sobre as manchetes de alguns dos principais veículos jornalísticos, neste 1º de junho de 2026, a pouco mais de quatro meses para a realização das eleições gerais no país, mostra ainda uma mídia mainstream tocando instrumentos diversos, como uma orquestra desafinada, sem uma escolha de pauta dominante ou convergente em direção a um determinado projeto político. Os agentes, em franca movimentação, não obstante a vedação da Justiça Eleitoral, devem ocupar a mídia jornalística como espaço ainda altamente relevante à formação da opinião pública. Relendo as manchetes e o lides das reportagens que as sustentam, me veio à memória as palavras do saudoso professor Nilson Lage, no capítulo final do clássico “Ideologia e técnica da notícia” (2012), no qual ele discorre sobre o tema “Investigação sobre a verdade nas notícias”. Cito integralmente o professor Lage e encerro esta brevíssima reflexão:
“Os jornais, em suma não tem saída: são veículos de ideologias práticas, mesquinharias. Mas têm saída: há neles indícios da realidade e rudimentos de filosofia prática, crítica militante, grandeza submetida, porém insubmissa” (Lage, 2012, p. 143).
Publicado originalmente em objETHOS.
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Samuel Pantoja Lima é Jornalista, docente do Departamento de Jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS
